quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Importância dos mass media nas Políticas Públicas de Segurança

A chave para uma boa utilização de um modelo que realce “a necessidade de canais permanentes de comunicação entre todos os interessados (stakeholders) e a flexibilidade necessária para se proceder a revisões periódicas de objectivos”, passa pelo “envolvimento dos principais actores no próprio processo, a comunicação social e a opinião do público” (Bilhim, 2008, p. 106 e 107).

 Segundo João Bilhim, “a teoria clássica ensina que para determinado interesse fazer parte da agenda política é necessário que se transforme num facto político controverso, que haja um conflito de interesses que justifique a intervenção do poder político”. Ora, a comunicação social é o motor deste sistema, que continua em vigor. É possível dizer que quem melhor souber lançar esse conflito na comunicação social melhores resultados obterá, sendo que os jornalistas, muitas vezes inconscientemente coniventes com a situação, também dão destaque a esse tipo de conflitos vestindo a pele de quarto poder, sem averiguarem as motivações de quem lança o conflito, a altura em que o faz ou o ligação dos envolvidos com a questão em causa, muitas vezes por falta de tempo ou com a visão toldada pelo entusiasmo do conflito relativamente ao resto das notícias do dia.

A reflexão nas redacções tem vindo a perder-se, sobretudo por falta de tempo, e, com a redução do número de jornalistas nos órgãos de comunicação social, a necessidade de mesmo fazer oferecer melhor e mais produtos, se possível antes da concorrência que tem vindo a aumentar, apostando cada vez mais no imediatismo. Com efeito, segundo José Rebelo, é ainda preciso ter em conta o “efeito mimético da uniformização dos temas” e de abordagens, que transborda dos grandes grupos para contaminar todo o campo dos média” (AAVV, 2011, 24).

 Neste cenário os editores e as chefias cada vez se tornam mais reprodutores da mensagem de alguém do que propriamente jornalistas, envolvendo-se assim, inconscientemente, numa máquina de criação de factos, querelas e, consequentemente, na definição da agenda política. Esta realidade tem sido claramente aproveitada por entidades várias, desde partidos políticos a empresas, que cada vez investem mais em comunicação, contratando relações públicas e assessores com o exclusivo trabalho de realizar comunicados de imprensa escritos como se de um produto jornalístico se tratasse, algo que os jornalistas agradassem sobretudo na hora do fecho de um jornal ou em cima de um noticiário. As próprias declarações de líderes políticos cada vez mais são feitas no prime time dos telejornais por forma a serem vistos/ouvidos pelo maior números de pessoas possível e também para escapar ao crivo jornalístico, que edita as declarações, contextualizando-as e retirando o essencial, muitas vezes de entre um discurso feito de auto-elogios. “A difusão directa de informação implica tanto uma promessa como uma ameaça. Pode contribuir para amadurecer uma deliberação colectiva, mas os seus benefícios são evanescentes se a informação é tendenciosa ou, pelo contrário, deficiente - um perigo que pode ser amplificado por uma media centralizada e relativamente homogénea” (Nincic, 1992, p. p. 782).

A manipulação inconsciente é ainda maior quando os media não têm o conhecimento suficiente sobre a matéria em causa, por não o terem estudado ou por a fonte ser apenas o governo. Para além disso, sobretudo num clima de crise e de incerteza crescente no sector, continuam a ser muitas vezes os editores e os directores dos órgãos de comunicação social a decidir o que é notícia, deixando-se levar até por solicitações de amizades ou envolvendo-se numa troca de favores, já para não falar nas ideologias e crenças dos mesmos, que devem ficar à porta da redacção, visto a actividade jornalística idealmente buscar a imparcialidade máxima.

Muitas vezes os próprios directores dos órgãos de comunicação cedem à pressão por considerarem que esse é o melhor caminho a longo prazo para a empresa que gerem e, consequentemente para a manutenção do seu emprego. Estamos a falar de casos como, por exemplo, a divulgação de uma notícia da forma como ela é solicitada por assessores dos governantes em troca de futuras entrevistas exclusivas ou da não divulgação de notícias que ferem um patrocinador, seja ele o Estado, seja uma empresa.

Para além de todos estes perigos que existem dentro dos meios de comunicação social, fora deles é cada vez maior o espaço comunicativo, sobretudo com o número cada vez mais alargado de utilizadores da Internet, onde as empresas, os grupos de pressão e os políticos podem chegar aos cidadãos com a maior das facilidades, muitas vezes de forma gratuita, como por exemplo através das redes sociais. As novas plataformas comunicacionais em geral e os meios de comunicação social em particular são agora de fácil acesso aos cidadãos, tornando-se “verdadeiras 'centrais de comunicação', dificilmente anuláveis, capazes de informar (e desinformar) a opinião publica”, bem como de servir os interesses de terroristas com relativa facilidade (Carvalho, 2007/8, p. 103).

Efectivamente, não só redes terroristas transnacionais usam a Internet para aliciar futuros terroristas e ensiná-los até a fazer bombas, como os meios de comunicação social são a melhor forma de chegar ao grande público. Não é por acaso que algumas organizações terroristas já aproveitaram atentados de outras reivindicando-os por forma a passar a sua mensagem. Poderá até dizer-se que provavelmente o terrorismo indiscriminado não teria tanta expressão se não fosse o impacto que tais acções têm nos meios de comunicação social e, consequentemente no público.

Miroslav Nincic alerta que “ignorando as duras realidades de um mundo anárquico dominado por lutas de poder, o público tende a ser impulsionado pelo moralismo ingénuo e pela emoção desinformada”. Como resultado, “o sentimento popular tende a ser volátil e equivocado”, levando a que as políticas tomem caminhos fora da “razão fria”, “prejudicando o interesse nacional” (Nincic, 1992, p. 773 e 774). Os meios de comunicação social são os primeiros, em nome dos cidadãos, a exigir respostas imediatas e visíveis do Governo perante um atentado, o que por vezes pode revelar-se contraproducente, com os políticos a tomarem medidas extremas, como atacar outro país, como vimos antes. Com efeito, nos atentados de grande efeitos os terroristas têm conseguido o que querem: “abalar a confiança entre a sociedade e os seus governos, bem como a própria confiança dos cidadãos nos seus modelos de vida social e nos seus valores” (Adriano Moreira, citado em Carvalho, 2007/8, p. 102), gerando um “estado psicológico de 'terror' impeditivo muitas vezes da própria identificação e combate aos agentes da ameaça” (Carvalho, 2007/8, p. 102).

Urge, portanto, inverter o jogo, evitando entrar no jogo das soluções extremas. Por isso mesmo interessa que o sentimento de Defesa e Segurança seja “abrangente, esclarecido e o mais conscientemente assumido possível” (Chaves, 2011, p. 19). Nessa mudança, os jornalistas devem ser os pioneiros, até porque a comunicação social tem o dever de formar e assume o papel de gerar opiniões ao decidir, por exemplo, que especialistas ou intervenientes convida para comentar determinado tema.

Este desafio tem sido enfrentado com cursos para jornalistas, dados por forças policiais, como a PSP. Na altura do primeiro curso do género lançado pela PSP, Oliveira Pereira, enquanto director nacional daquela força policial, disse que o objectivo passa por “incrementar uma melhor interligação, um maior esclarecimento e uma melhor comunicação entre a polícia e os órgãos de comunicação social, responsáveis pela transmissão de noticias especialmente sensíveis e, por isso, susceptíveis de colidirem com a tranquilidade dos cidadãos” (Pereira, 2009 p. 13).

Nos últimos anos tem-se também assistido a uma mudança na própria relação das forças de segurança com a comunicação social, decorrente também da necessidade de uma maior aproximação ao cidadão. No âmbito do policiamento de proximidade, as polícias, como por exemplo da PSP, agora esforçam-se em criar uma relação confiável com o cidadão, pondo fim a décadas de afastamento. Talvez devido à herança da PIDE, existia um certo temor em relação a abordar um polícia, algo que mudou consideravelmente nos últimos anos, com os polícias a despirem a capa de “polícia implacável” para vestirem a de “polícia companheiro”. Devido à importância de chegar ao cidadão e também da constatação de que uma das formas mais rápidas e eficazes de o fazer é através dos meios de comunicação social, as próprias estruturas policiais alteraram a sua relação com os media numa escala de 180º graus. Se ainda há poucos anos era praticamente impossível para um jornalista obter uma simples informação dos polícias, actualmente as próprias forças de segurança têm gabinetes de comunicação que se aproximam dos media para divulgar acções que realizaram ou até para dar conta do estado de uma situação.

Esta alteração de postura poderá também ter resultado de decisões governamentais, com vista à publicitação de mudanças positivas nas forças de segurança decorrentes de mudanças no governo, ou simplesmente de uma necessidade de as polícias sentirem necessidade, perante a crise, de mostrarem o seu trabalho aos cidadãos e a importância dos impostos destinados ao mesmo. No diploma sobre o Conceito Estratégico de Defesa Nacional, em 2003, o executivo de então informou que “a articulação da política da defesa com a política de educação” seria uma prioridade para o “exercício da cidadania”. “É uma obrigação nacional reforçar a educação para o patriotismo, cuidar das componentes de segurança e defesa nos programas escolares e proteger, modernizando, as instituições de ensino especificamente militares”, lê-se no documento (Diário da República - 1 Série B, nº 16, 20 de Janeiro de 2003, p. 263). Em todos estes objectivos de aproximação ao cidadão, a comunicação social assume um papel inigualável.

Nota: Este texto faz parte de um trabalho académico sobre Políticas Públicas de Segurança e Mass Media realizado em Janeiro de 2012. O primeiro post foi sobre Políticas Públicas, uma nova forma de governar, o segundo foi sobre Políticas Públicas de Segurança e o terceiro sobre o cidadão e o seu papel na Segurança. Obrigada por acompanharem.

Referências bibliográficas:
AAVV (2011), Portugal num mundo em mudança, Lisboa, Público e Universidade Autónoma de Lisboa.
BILHIM, João (2008), “Políticas públicas e agenda política”, in Revista de ciências sociais e políticas, nº 2(Jan.-Abr. 2008), p. 99-121.
CARVALHO, Jorge Silva (2007/8), “Segurança: visão global – a perspectiva das informações”, in Segurança e Defesa, p. 99 a 104.
 CHAVES, Carlos (2011), “Sistema de Segurança Nacional – Ensaio de uma nova visão”, in Segurança e Defesa, Julho/Set de 2011, p. 16 a 21.
Diário da República (2003), “Resolução do Conselho de Ministros nº 6/2003”, in Diário da República - 1 Série B, nº 16, 20 de Janeuri de 2003.
NINCIC, Miroslav (1992), “A Sensible Public: New Perspectives on Popular Opinion and Foreign Policy”, in The Journal of Conflict Resolution, Vol. 36, No. 4 (Dec., 1992), pp. 772-789.
PEREIRA, Oliveira (2009), “É fundamental recriar uma cultura de respeito pela autoridade do Estado”, in Segurança e Defesa, Set./Nov 2009, p. 10 a 13.

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