domingo, 25 de março de 2012

"As guerras também se inventam?"


Deixo-vos abaixo um artigo de opinião, que podem encontrar na Courrier internacional deste mês, um tanto pertinente.



«As guerras também se inventam?

Nos anos 60, Che Guevara lançou uma palavra de ordem antiamericana que ficou célebre: “É preciso criar um, dois, três Vietnames…” Meio século depois, Washington parece apostado em criar não um mas vários Iraques, senão diversos Afeganistões. É certo que a perspetiva de um Irão com capacidade nuclear é assustadora, mas há qualquer coisa de familiar no bombardeamento mediático sobre o país dos ayatollahs. A Agência Internacional para a Energia Atómica (AIEA) ainda não encontrou provas de que o país esteja, de facto, a construir bombas nucleares. Os serviços secretos ocidentais também não. Mas EUA e EU avançaram já com sanções (que atingem mais o povo iraniano que a clique dirigente), enquanto a marinha norte-americana ocupa o Golfo Pérsico. Supostamente, Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça e, por isso, foi invadido pelos EUA em 2003. Os inspectores da ONU nunca as tinham conseguido encontrar e, uma vez que o país ocupado e o ditador derrubado, nem a CIA, nem as tropas especiais americanas lhes descobriram o rasto. Em contrapartida, o país ficou destruído, libertaram-se os demónios da violência sectária e subverteram-se os equilíbrios geoestratégicos do Médio Oriente.

O paralelo entre o Irão de Ahmadinejad e o Iraque de Saddam salta à vista, mas vale a pena recontar a História dos últimos 60 anos. Em 1953, com a vitória do republicano Eisenhower nos EUA e o regresso ao poder dos conservadores britânicos (chefiados por Churchill), os serviços secretos dos dois países montaram um golpe de estado no Irão para afastar o Governo nacionalista de Mossadegh que ousara pôr em causa o monopólio das companhias petrolíferas inglesas. O ditador “inventado” pelo Ocidente foi o Xá da Pérsia, que conseguia incompatibilizar-se com os republicanos laicos e com os fundamentalistas xiitas. A revolução que o derrubou em 1979 degenerou num Estado teocrático e humilhou os EUA, fazendo reféns durante 444 dias os funcionários da embaixada em Teerão. A partir de 1980, americanos, franceses e ingleses armaram o Iraque laico e republicano de Saddam (que era uma ditadura sinistra mas para o caso servia) contra o Irão dos ayatollahs. O banho de sangue durou oito anos e ninguém ganhou. Irritado por ter arruinado o país, não ter conquistado território e não ter recebido compensações ocidentais, Saddam invadirá o Kuwait em 1990. Consequência directa: a I Guerra do Golfo, em 1991. A presença de tropas dos EUA em território saudita contribui para exasperar um então ilustre desconhecido que fora aliado circunstancial da CIA na guerrilha movida pelos mujahedins afegãos aos invasores soviéticos. Chamava-se Bin Laden e fundou a AL-Qaeda. O resto da sua biografia é do conhecimento geral.

Será que o Irão xiita de Ahmadinejad menos respeitador dos direitos humanos do que a Arábia Saudita (potência sunita apoiada pelos EUA) que lhe disputa a hegemonia regional? Será mais difícil conviver com um futuro Irão nuclear do que uma Coreia do Norte paranóica ou um Paquistão apertado entre a ameaça constante de golpe militar e a cumplicidade com os talibãs e a Al-Qaeda? Tem Israel, que, ao contrário do Irão, não assinou o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, o direito de possuir bombas atómicas e de fazer ataques preventivos ao Iraque (1981) e à Síria (2007) para estes não as desenvolverem?

Na vizinha Síria, onde a Primavera Árabe luta por se impor, com a Rússia e China a protegerem escandalosamente um ditador assassino, a ONU vai finalmente intervir com armas? Ou preferirão os serviços secretos ocidentais, o Qatar e a Arábia Saudita armar uma guerrilha fundamentalista sunita para derrubar um Al-Assad apoiado pelos xiitas de Teerão? Foi assim em 1980 no Afeganistão contra os soviéticos e todos sabemos como a história (ainda não) acabou.»

sábado, 24 de março de 2012

Curso de Informações e Segurança

Recomendamos vivamente o curso de Informações e Segurança que terá lugar no ISCSP já a partir de 16 de Abril, até porque como alunos de Relações Internacionais tivemos a cadeira com o mesmo nome leccionada exactamente pelo mesmo Professor, que abre agora esta oportunidade de aprendizagem a pessoas que não estejam integradas no mestrado.

Nesta formação é possível perceber como são tomadas certas decisões ao nível das Informações Estratégicas – tão úteis para Estados e outros tipo de entidades, como empresas – e Informações de Segurança e ainda aprender técnicas de procura e de análise próprias dos Serviços de Informações e de serviços privados de Intelligence.

Pode obter mais informações sobre o curso aqui.

quarta-feira, 21 de março de 2012

"Ouro Azul: A Guerra Mundial pela Água"

A água, esse bem escasso, e essencial à natureza humana, será causa de conflito no decorrer do presente século. Este recurso natural, desproporcionalmente distribuído, tem sido nos últimos tempos, e será nos próximos, a razão pela qual homens defrontam-se, pela sobrevivência.

Desde finais do século XX que assistimos a conflitos regionais, especialmente em África e no Médio Oriente, com repercussões internacionais, nomeadamente ao uso, domínio e direitos sobre a água.

Aquilo que deveria ser um direito humano, «(…) um pré-requisito para que os outros direitos humanos sejam possíveis», como menciona a Amnistia Internacional, não é reconhecido como tal no 6º Fórum Mundial da Água, que decorreu em Marselha, no presente mês.

São vários os estudos relativos à escassez da água e seus efeitos na vida humana. As alterações não têm apenas impacto ambiental, mas também político, económico, tecnológico e sanitário. A segurança humana é colocada em causa!

Segundo o Relatório do Desenvolvimento Humano, “Escassez de água — riscos e vulnerabilidades associados”, o grau de risco de escassez de uma dada região é calculado através da equação água/população. Como tal adoptaram que 1.700 metros cúbicos por pessoa seriam o limiar mínimo nacional para responder as várias necessidades. Estipularam ainda que uma disponibilidade inferior a 1000 metros cúbicos representa uma situação de escassez de água, e que inferior a 500 metros cúbicos, escassez absoluta.

Cerca de 700 milhões de pessoas, de 43 países, vivem abaixo do limiar mínimo, ou seja vivem em situação de carência de água. Estima-se que em 2025, mais de 3 mil milhões de pessoas viverão em países sujeitos a pressão sobre os recursos hídricos, dos quais, 14 países se encontrarão numa situação de escassez efectiva. As áreas mais afectadas do globo são o Médio Oriente e África Subsariana. Ao longo dos tempos temos vindo a assistir a conflitos principalmente nestas duas regiões. Enquanto que no Médio Oriente, região mais atingida pela pressão da falta, dispõem apenas de 1.200 metros cúbicos por pessoa, abaixo do mínimo estipulado, na África Subsariana deparamo-nos com o maior número de países pressionados pela carência de água, um quarto da população depara-se com a escassez desse bem.

Ainda de acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano, prevê-se que em 2025, a pressão de falta de água sob a África Subsariana intensificar-se-á, sendo que afectará 85% da população. No Médio Oriente e no Norte de África a situação agravar-se-á. As reservas de água médias situar-se-ão em 500 metros cúbicos por pessoa, ou seja escassez absoluta. Estimam que mais de 90% da população da região viverá em países atingidos pela escassez de água. Outra problemática será a densidade populacional, países como a China e a Índia, densamente povoados, farão parte dos países ameaçados pela falta de água.

Como supramencionado, os conflitos tendem a aumentar uma vez que o recurso hídrico, água, tende a escassear, nomeadamente em zonas de grande concentração populacional. Se analisarmos o globo deparamo-nos com várias tensões, nomeadamente no Sri Lanka com os Triges Tamil, entre a Índia e o Paquistão, entre o Bangladesh e a Índia, entre Israel e os territórios da Palestina e da Jordânia, entre o Egipto e o Sudão, entre o Egipto e a Etiópia, entre a Turquia, Síria e o Iraque, e outros mais, que marcaram a história.

Steve Lonergan refere ainda que em muitos dos casos a água seria usada como “arma” no seio do conflito. Desde os primórdios da humanidade até a actualidade vários são os exemplos.

Num cenário quase que apocalíptico a cooperação continua a ser a solução, apesar de todos os entraves. Como menciona Arun P. Elhance, em “Hydropolitics in the Third World Conflict and Cooperation in International River Basins”, «a cooperação hidropolitica pode demorar muito tempo a desenvolver-se, pode não levar necessariamente ao desenvolvimento efectivo e fixação dos recursos partilhados de água, pode não satisfazer ou beneficiar todas as partes de igual maneira e pode não ser possível sem um mediador; no entanto, uma vez conseguida, tal cooperação durará».


Aos interessados recomendo a visualização do documentário "Ouro Azul: A Guerra Mundial pela Água".

domingo, 18 de março de 2012

Terrorism and Mass Media: An insight on Jihadist strategy

Nota: Texto gentilmente cedido aos alunos do blogue Ocidente Subjectivo por Heitor Barras Romana, Professor Associado do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.

There is a scholarly consensus around the construction of the concept of terrorism as:

“An anxiety-inspiring method of repeated violent action, employed by (semi)-clandestine individual, group or state actors, for idiosyncratic, criminal or political reasons, whereby – in contrast to assassination – the direct targets of violence are not the main targets. The immediate human victims of violence are generally chosen randomly (targets of opportunity) or selectively (representative or symbolic targets) from a target population, and serve as message generators. Threat - and violence – based communication processes between terrorist organization and victims are used to manipulate the main target (audiences), turning into a target of terror, a target of attention, depending on whether intimidation, coercion, or propaganda is primarily sought” (Alex Schmid, A.Jongman, 1984).

The terrorism emphasizes what we call "ontological process" factors including psychological, social and cultural, which provide the setting up the analysis of the phenomenology of terrorism.
Still on the categorization of terrorism is essential to stress is essential to stress the existence of strategic objectives and tactical objectives. Those objectives influence and determine one or more subsystems of the international component of the decision-making, in order: to generate functional imbalances, which can affect the priorities on the agendas of international institutions, multilateral relations and even political-military alliances. Thus, We are in the presence of a context of globalization of terrorism, without territorial and geographical configuration.

In the analysis which is on the "geopolitics of terrorism," Remi Baudoui (2009) puts the phenomenon of transnational terrorism as part of a new interpretation of space and territory as a platform of the organization of terror. This is evident in the passage of semantic designation of "terrorist group" Al Qaeda applied to "terrorist network". This change reflects the evolution itself and adjustment of operating ALQaeda. Indeed, it appears that initially, Al Qaeda is organized around the defense of Muslim lands in concrete against the expansionist enemy in Afghanistan. In a second phase, the aim is to remove the infidels of the spaces that form the basis of Islam's spiritual collective memory, or liberate Jerusalem. A third phase corresponds to the constitution of global Jihad, without borders and citizenship. This "territorial"/"deterritorialization" of the phenomenon of Islamic terrorism matrix is a major challenge, because it seeks to become a legitimate identity that evolves a “local” territory toward a global space, that means – the “glocalization” of terrorism.

Any study of global terrorism as a geopolitical issue necessary need the approach on the use of mass media as a part of terrorism propaganda strategy and as a part of its “political” agenda as well.

Marshal McLuham, one of the most celebrated researchers on the social impact of the mass media, came to the relatively precocious conclusion that “without communication terrorism would not exist”. This short sentence holds a truth that has remained unchanged during the last two decades. It is not uncommon to cite the relationship between the diffusion of terrorist messages and the existence of modern mass media (Manuel Soriano, 2008:2).

“Terrorism is theatre” and terrorist attacks carefully choreographed to attract the attention of the media. In turn, the media responds to these overtures proving unable to ignore what has been accurately described as “ an event”, according to Bruce Hoffman, quoted by the report on” Mass Media and Terrorism” conducted in 2008 by the Institute for Safety, Security and Crisis Management, under the auspices of European Union .

In this study, the researchers considering that the media are very well suited for the purposes of terrorists. Several theories concerning characteristics – or capabilities - of the media explain part of this phenomenon. Two of the most important media theories are “agenda setting and framing”.

“Agenda setting” is the theory that the more attention a media outlet pays to a certain phenomenon, the more importance the public attributes to such an issue. The theory of “framing” states that the way a news item is presented can have an influence on how it is interpreted or understood by the audience  ISSCM,2008:6 apud Scheufele and Tewksbury, 2007:11-12).

For Paul Wilkinson (1997), in using TV, radio and the print media the terrorists generally have four main objectives:

1) To convey the propaganda of the deed and to create extreme fear among their target group;

2) To mobilize wider support for their cause among the general population, and international opinion by emphasising such themes as righteousness of their cause and the inevitability of their victory;

3) To frustrate and disrupt the response of the government and security forces, for example by suggesting that all their practical anti-terrorist measures are inherently tyrannical and counterproductive; and

4) To mobilize, incite and boost their constituency of actual and potential supporters and in so doing to increase recruitment, raise more funds and inspire further attacks.

Other author, Brigitte Nacos, stated that terrorists have four general media - dependent objectives when they strike or threaten to commit violence.

The first is to gain attention and awareness of the audience, and thus to condition the target population ( and government) for intimidation: create fear.

The second goal is recognition of the organizational motives. They want people to think about why they are carrying out attacks.

The third objective is to gain the respect and sympathy of those in whose name they claim to attack.

The last objective is to gain a quasi-legitimate status and a media treatment similar to that of legitimate political actors (Nacos, 2007:20).

By regularly appearing in the media, terrorists are trying to become a legitimate representative of their own cause. Whether or not the audience agrees is, for this objective, of less importance. The theory is that merely the fact that they are treated by the media much like regular, accepted, legitimate world leaders gives them a similar status. This is mainly achieved by getting personal airtime through interviews and recorded videos or messages. Framing is very important in this. If terrorists having the media frame their leader much like a “regular” leader would be framed, the audience may got the impression that the two are comparable. If, on the other hand media make a clear distinction between actual world leaders and terrorist leaders, the audience may do so too. ALQaeda use this strategy, by regular sending in videos to the media portraying their leaders as leaders of the world (ISSCM,2008).

Michael Wieviorka, a French sociologist quoted by Manuel Soriano(2008:6) splits the relationship between terrorists and the media into four different levels:

1) Complete Indifference - The terrorists’ goal is to terrorize their victims, without seeking to attain media attention for their acts. There is no expectation that the press will become involved. This French author does not hesitate to mention that this situation is highly unusual;

2) Relative Indifference – The terrorists are not concerned with being on the news, even though they are conscious of the power that explaining their cause in currently existing media can provide them;

3) A Media-Oriented strategy – The terrorists are not only aware that the press can expand the scope of their words and actions, they also perform a series of operations based on the knowledge that they possess on the dynamics and functioning of the news producers. After well thought manipulations, the news media becomes integrated in the terrorist group’s actions;

4) Complete Breakaway – This is case of terrorists that see journalists and reporters as enemies that must be destroyed, putting them on the same level as other direct adversaries. The press ceases to be an entity that should be cynically manipulated. It is instead viewed as the appendix of a system that must be destroyed.

Soriano places al Qaeda in the last two of Wievioska’s levels of Relationship - Media oriented and Complete Breakway.

In our opinion, in the Relationship – Media oriented strategy the Alqaeda tends to use- for example- special relationship within the Aljazeera to bolster their political agenda, a logic that is very close to the latent political communication processes used in the West by pressure groups and interest groups that have particular access to mass media. This leads to Al Qaeda that should be observed and understood not as a messianic movement uniting the "Umma", but rather as a project to capture and exercise of power, which has as one of its main elements, the "media management processes".

Thus, in this “media management processes”, Al Qaeda has developed a new strategy concerning a bet on the new information technology use – the cyberspace and internet.

Like is stressed by Soriano, Al Qaeda has learned from the propagandistic experience of other terrorist groups that surround it. Many of them almost never establish direct contact with the mass media, concentrating their communicative activities in cyberspace. These methods have prevented them from receiving wide media attention. Paradoxically, the mass media themselves use the web to look for footage and messages that act to further illustrate their news stories. The very existence of these elements on the Internet isd a story in and of itself, without the need for other intermediaries. In this way, the news is compelled to reflect and present those events that anonymously have the capability to gain noteworthy repercussions on international public opinion.

For Al Qaeda, the Internet is not only method to reach the media in a safer and more immediate way, it also is a turning point in their communication strategy given that the web devalues the importance of traditional media. For the first time in history, cyberspace allows for there to be direct communication between a terrorist and his “public”. Terrorists control their messages well, always saying exactly what they want to say and when they want to say it (Soriano, 2008:15).

Another example of the use of Internet by terrorist groups is concerning the website Kavkaz Center, which is used as message passing interface by the self-proclaimed Caucasus Emirate. This islamist structure is responsible for several attacks in North Caucasus and Moscow, that is an example the suicide bombings attacks of March 31, 2010 and January 24, 2011.In both situations was through the website Kavkaz Center that the group claimed the attacks.

Kavkaz Center it is a quite interesting case study since its media strategy has three main goals: Transmit the Jihadist message and mobilize support from “Umma ” around the world; transmit the idea of the suicide terrorism as an act of heroism; and conduct propaganda actions to demoralize the Russian strategy toward the combat of terrorism in North Caucasus.

In sum, I would like to stress three main points:

1) The mass media and particularly the network media have become operational tools for terrorists ensured them a wide capacity of penetration in different communication arenas;

2) They adapt and adopt their messages and communicational methods accordingly the audiences and collective psychological behavior;

3) The mass media strategy developed by the global terrorist threat is part of a geopolitical agenda in order to create a “war” between Islam and the Western Civilization values.

References:

Badoui, Remi(2009) -  Géopolitique du Terrorisme, Armand Colin, Paris

Institute for Safety, Security and Crises Management(2008) – Report  on Mass Media and Terrorism. European Union

Nacos, Brigitte  (2oo7) – Mass-mediated terrorism: The central role of the media in terrorism and counterterrorism( 2nd edition) Rowman & Littlefield Publishers, Inc, Lanham.

Schmid, Alex (1984) – Political Terrorism: a new guide to Actors, Authors, Concepts, data bases, Theories, and Literature. Transaction Publishers, London.

Soriano, Manuel (2008) – Terrorism and the Mass Media after AL Qaeda: A Change of Course?, Athena Intelligence Journal,Vol.3, No2. www.athenaintelligence.org

Wilkinson, Paul (1997) – “The Media and Terrorism: A Reassessment” in Terrorism and Political Violence, Vol.9, No2 ( Summer) pp.521-64, Published by Frank Cass, London.

quarta-feira, 14 de março de 2012

A mediatização de um homem, Kony

A campanha “Kony 2012” nos últimos dias tornou-se um fenómeno planetário. Todos aqueles que viram o vídeo da campanha certamente ficaram revoltados por Kony, "senhor da guerra", encontrar-se ainda em liberdade. Em 30 minutos a ONG, Invisible Children, expõem as atrocidades que Kony realizou no Uganda. Apelando ao sentimentalismo de cada um propõem uma missão, capturar Joseph Kony até ao final de 2012.
Apesar do imenso sucesso, logo surgiram variadas críticas relativamente às informações fornecidas no vídeo da campanha como também à acção da Invisible Children. Para além da campanha encontrar-se com cerca de 10 anos de atraso, uma vez que Kony deixou de ser prioridade, a ONG apela também à cooperação norte-americana com o Exército do Uganda continue, quando este é acusado de cometer abusos dos direitos humanos.



Assim penso que é fundamental expor sumariamente os últimos acontecimentos vividos naquele território.
Kony nasce em 1963 no norte do Uganda, no seio de uma família rural. Um ano antes, a 9 de Outubro de 1962 o Uganda havia tornado independente. Os primeiros anos da independência são marcados por várias lutas políticas, várias visões de Estado, golpes de Estado, ditadura, luta armada e assassinato de civis.
Entre 1981 e 1986 o Uganda deparou-se com uma guerra civil que opôs o governo de Milton Obote à guerrilha denominada National Resistance Army, liderado por Yoweri Museveni, visto que violações dos direitos humanos sucediam por parte das forças de segurança. Numa tentativa de parar com a rebelião uma parte do país foi destruída.
A 27 de Julho de 1985, a capital do Uganda, Kampala, é tomada por Tito Okello e é proclamado um governo militar. Milton Obote ruma ao exílio na Zâmbia, e o General Tito Okello inicia negociações com Museveni, com fim de cessar os conflitos entre tribos e organizar eleições livres e justas. Ainda assim o abuso dos direitos humanos continuava nomeadamente contra os membros do NRA e seus apoiantes.
Em Janeiro de 1986, o NRA toma Kampala, obrigando Okello e as suas forças a refugiarem-se no Sudão.
Tal acção levaria a uma revolta por parte da etnia Acholi contra Museveni. Na altura Alice Auma liderou um grupo de rebeldes em ataque contra Museveni, mas sairia totalmente fracassada, e Auma iria refugiar-se no Quénia, decorria o ano 1987. Com a ausência de Lakwena, Kony assume o que resta do grupo Holy Spirit Movement, que seria a semente para o que mais tarde se tornaria Lord´s Resistance Army (LRA). Joseph Kony tornar-se-ia figura relevante no confronto regional no norte do Uganda. Pretendia derrubar o governo de Museveni e implementar um governo baseado nos 10 Mandamentos da Bíblia. Impera referir que Kony se proclamava um profeta.
A organização que liderava seria apoiado por pessoas do norte do Uganda, mas com o passar do tempo diminuiriam os recursos, que resultaria na vitimização da etnia Acholi.
Nos anos seguintes, Kony e a sua organização LRA, cometeriam atrocidades à população ugandesa. Para além de saquear aldeias, matou milhares de pessoas, abusou e mutilou civis, raptou milhares de crianças.
As acções do LRA, na década de 90 permitiram desestabilizar as regiões vizinhas, nomeadamente o sul do Sudão, a República Democrática do Congo e a República Centro-Africana. Tal deveu-se em grande medida à elevada quantidade de membros que detinha o LRA, cerca de 10 mil.
Decorria o ano de 1994 e ao LRA conseguia o apoio do Sudão. O governo sudanês pretendia utilizar a organização na sua luta contra o governo do Uganda, uma vez que aquele tinha apoiado os rebeldes no Sudão.
É apenas em 2005, que o Tribunal Penal Internacional emite um mandado de prisão para Joseph Kony. Acusado de crimes contra os direitos humanos, alegou sempre inocência e no final do mesmo ano acabaria por fugir do Uganda. Um ano depois, 2006, Kony reaparece em Maio, para negociar a paz com o governo do Uganda e um cessar-fogo é declarado em Agosto. Dois anos depois, o acordo havia surgido entre ambos os intervenientes, mas aquando da assinatura do acordo de paz, Kony encontrava-se em parte incerta.

Actualmente o Uganda não se encontra em guerra, mas existe muito a construir num país que sofreu conflitos internos desde a sua independência. Joseph Kony deixou de se tornar prioridade para o governo ugandês, uma vez que já não se encontra no território.
A prioridade é reconstruir e melhorar a vida da população, especialmente das crianças, nos vários âmbitos, seja educação, saúde, saneamento básico, ou seja naquilo que é essencial a uma vida digna.
Ainda assim, penso que é fundamental que indivíduos como Joseph Kony sejam julgados pelas atrocidades que cometeram. É importante não esquecer as vítimas e capturar indivíduos como Kony, pode não ser prioridade mas tem que existir. Mais cedo ou mais tarde têm que responder perante a lei, ora vejamos como exemplo o recente julgamento de outro “senhor da guerra”, Lubanga.

sábado, 10 de março de 2012

ODM 3 - “igualdade de género – promover a igualdade de género e empoderar as mulheres”





“You can tell the condition of a nation by looking at the status of its women”
Jawaharal Nehru


Recentemente festejou-se mais um “Dia da Mulher”. Os anos passam e a simbologia daquele dia, parece perder-se no quotidiano de muitos outros. Aquele que deveria ser lembrado como a luta de tantas e tantas mulheres ao longo dos séculos por igualdade entre os sexos tornou-se numa sombra, num banal “dia comercial”.
Ainda há muito a fazer. A igualdade de género não existe! É certo que no “mundo ocidental” a vida para as mulheres está mais facilitada, mas no restante mundo a história diverge. Ser mulher em determinadas partes do globo é estar condenada.
Decorria o ano 2000, e em Setembro vários líderes, chefes de Estado e de Governo de 189 países, reuniram-se nas Nações Unidos com fim de assinar a “Declaração do Milénio”. Estabeleceram 8 Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, os ODM, a alcançar até 2015. O compromisso assumido pressupunha o investimento de 0,7% do Rendimento Nacional Bruto de cada país em ajuda pública ao desenvolvimento, até 2015.
Todos os objectivos são de extrema importância, mas saliento o terceiro ODM, “igualdade de género – promover a igualdade de género e empoderar as mulheres”. O estabelecimento de um ODM dedicado apenas às mulheres evidencia a consciencialização por parte de variadas entidades de que não estamos perante um mundo com efectiva igualdade de género, e que existe imenso trabalho a realizar, para no mínimo diminuir as disparidades. Aliás a desigualdade de género encontra-se enraizada em diversas culturas.
Os dados que evidenciam essa disparidade são tremendos. De acordo com a informação da “Campanha Objectivo 2015”, cerca de 3/5 do 1.2 mil milhões de população pobre são mulheres, 2/3 dos 960 milhões de adultos do mundo que não sabem ler são mulheres, 70% das 130 milhões de crianças que não vão à escola são do sexo feminino, 60% das mulheres do mundo efectuam trabalho não remunerado ou mal pago, e representam a maioria entre os 1.2 mil milhões de pessoas que vivem com menos de 1.25 dólar por dia. Ainda referem que em 2008, dos 150 Chefes de Estado, apenas 7 eram mulheres, e dos 192 chefes de governos dos Estados-membros das Nações Unidas apenas 8 eram mulheres. Apenas 16% dos cargos ministeriais de todo o mundo são atribuídos a mulheres, e existem 13 países onde não têm qualquer representação feminina em posições governamentais.
Se juntarmos a este cenário o difícil acesso a água potável, estamos perante um panorama caótico. Como sabemos, o acesso a esse recurso natural encontra-se desproporcionalmente situado pelo globo, daí que nos deparemos com o surgimento de tensões ou conflitos por causa desse bem essencial ao Homem.
O sucesso do ODM, igualdade de género – promover a igualdade de género e empoderar as mulheres”, depende em grande medida do sucesso dos restantes objectivos. Se o ambiente envolvente detiver sustentabilidade e auto-suficiência, infra-estruturas, cuidados básicos de saúde estaremos no caminho certo para um futuro mais digno de todas as mulheres, mas para tal, como para tudo, vontade política é o essencial.
Às mulheres que tiveram a sorte de nascer deste lado do globo, a luta daquelas que vivem do outro lado também é nossa. Somos responsáveis por cada uma delas! Porque a desigualdade entre género é um mal dos dois mundos, do nosso e do delas, mas sejamos realistas, ao menos no nosso conseguimos viver, elas tentam sobreviver.
Que o dia 8 de Março encontre a essência da sua existência!

sexta-feira, 9 de março de 2012

"Syria: The Assads"

Bashar al-Assad optou pelo massacre dos seus civis com fim de perpetuar no poder. Desde 2011 que o Estado sírio está sob “fogo”. No seguimento da tão proclamada “Primavera Árabe”, manifestações surgiram contra o governo autoritário do herdeiro de Hafiz al-Assad.
A hereditariedade no poder seria o meio utilizado para governar, algo usual na região. Em 1994 a família Al-Assad, era abalada pela morte de Bassel, primeiro filho de Hafiz que estava destinado a seguir as pisadas do pai. Bashar vê o seu futuro tomar outro rumo. Em 2000 torna-se Presidente da Síria, na sequência do falecimento de seu pai.
Na altura era expectável um aproximar e uma abertura da Síria ao Ocidente, como também reformas democráticas, mas Bashar deu continuidade à política do seu antecessor.
Recorde-se que Hafiz, em 1982, com intuito de cessar uma rebelião motivada pela Irmandade Muçulmana, bombardeou a cidade de Hama durante vários dias. Estimam-se que 20 mil pessoas morreram. Bashar parece querer seguir as pisadas do pai, no que se refere à forma como lida com as manifestações. Relembro que desde o início dos protestos, em Janeiro de 2011, já morreram mais de 7500 pessoas segundo dados da ONU, ainda assim a oposição a Bashar calcula que o número de vítimas ultrapasse os 8500, grande parte na cidade de Homs. Outros são ainda vítimas de torturas.
Bashar já deu razões suficientes à comunidade internacional de que não é capaz de proteger nem assegurar a segurança dos seus cidadãos. Logo quando o Estado não é capaz de asseverar o princípio da responsabilidade de proteger, cabe então à comunidade internacional agir.
No caso da Líbia, como podemos comprovar verificou-se uma certa inércia por parte da comunidade internacional. Inicialmente os vários apelos ao fim da violência e a imposição de sanções pareciam o rumo ideal, para travar Kadhafi. Claro está que o cenário de violência não cessou, aliás escalou de tal maneira desencadeando uma guerra civil. Só passado cerca de um mês é que a comunidade internacional intervinha.
Porquê relembrar o caso da Líbia? De certa maneira assemelha-se com a situação na Síria. Bashar recusa abandonar o poder. Gustave Le Bon em As Opiniões e as Crenças, referia que «os homens dominados por uma certeza não podem tolerar aqueles que não a aceitam», Bashar sem dúvida é um destes homens.
As sanções persistem uma vez que não há outra alternativa, visto que, quer a Rússia quer a China vetaram no Conselho de Segurança da ONU, a proposta de intervenção estrangeira no território.
A inércia da comunidade internacional tem que cessar. Sei que são os interesses a ditar as regras do jogo e não a ética, mas a inércia só contribuiu para que para fortalecer essas atrocidades e propagá-las. Ao expandir contribui para o surgimento de centros de tensão e desequilíbrio, logo instabilidade.
E instabilidade e insegurança atormentam aos Homens.


Aos interessados recomendo o visionamento do documentário "Syria: The Assads"