quarta-feira, 4 de abril de 2012

"Israel Loves Iran"

Recentemente foi iniciada uma campanha que passou um tanto despercebida nos meios de comunicação, contrariamente à tão mediática “Kony 2012”. Lamentavelmente não teve a devida exposição relativamente à dimensão do problema.

A tensão existente entre Israel e Irão é perceptível. O Irão insiste em (re) afirmar que o seu programa nuclear tem fins pacíficos, e que tudo aquilo de que é acusado é mera especulação. Em contrapartida, o Ocidente crê que Teerão caminha a largos passos para a construção de uma bomba nuclear. Tal acontecimento colocaria em causa o equilíbrio de poder na região, daí o desconforto com a potência regional, Israel.

Importa reter que o programa nuclear iraniano foi lançado na década de 50 do século XX, com auxílio norte-americano, aquando do governo do Shah Pahlavi.

Desde o relançamento do programa nuclear por Teerão, no decorrer da década de 90, temos assistido a sucessivas estratégias com fim de travar os intentos iranianos. Desde pressões a nível diplomático e económico.

O mundo parece escandalizar-se perante um Irão nuclear, e não com Israel. Impera salientar vários aspectos. O Irão membro do Tratado de Não-Proliferação (TPN), pode desenvolver um programa nuclear legalmente. Tendo assinado o TPN, é alvo de inspecções por parte da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). Recorde-se que no relatório da AIEA de 2011, podíamos ler «o Irão tem realizado actividades relevantes para o desenvolvimento de um dispositivo nuclear» (Prashad.2012:48). Tal é algo que não ultrapassa aquilo que é estipulado no TPN. Relativamente ao Estado israelita, este já detém cerca de 200 ogivas nucleares, recusa-se a assinar o TPN, evitando assim os inspectores da AIEA.

Curiosamente o Ocidente parece temer um Irão nuclear e não um Paquistão nuclear, um território instável e fornecedor de terroristas.

Uma “guerra de baixo nível”, como li num artigo na Courrier Internacional, parece estar instalada. O Irão nos últimos tempos tem sido confrontado com sabotagem cibernética, violação do seu espaço aéreo, assassínio de cientistas nucleares e ainda explosões de instalações militares. Suspeita-se que por detrás destes ataques esteja Israel.

A crise está instalada! E parece que teima em não disseminar.

Face às sucessivas ameaças israelitas de um ataque preventivo contra as instalações nucleares iranianas, dois israelitas, Ronny Edry e Michal Tamir, designers gráficos, decidiram através das redes sociais lançar a campanha “Israel loves Iran”. Logo alastrou-se além fronteiras e no Irão surgia “Iran loves Israel”.

Este movimento pacífico evidencia o desejo quer de israelitas quer de iranianos para uma solução que não passe pelo confronto. Após o lançamento da campanha, vários protestos decorreram nas ruas de Telavive, contra as diversas ameaças bélicas de Benjamin Netanyahu.

Ainda assim segundo uma sondagem realizada pelo Centro de Jerusalém para os Assuntos Públicos, revela que 65% dos inquiridos estão de acordo com um eventual ataque a Teerão. Acreditam que as consequências de um ataque preventivo serão menores do que viver com um Irão nuclear. Uma outra pesquisa realizada pelo jornal Há´aretz revela que não existe consenso no seio da população israelita. Nesse mesmo estudo cerca de 58% dos entrevistados é contra qualquer ataque.

Um tanto curioso o contra-senso destes dados. Penso que nem israelitas nem iranianos, pretendem um conflito entre as duas potências regionais. As consequências seriam devastadoras na região e apenas contribuiriam para atrasar o programa nuclear. No panorama internacional teriam certamente graves repercussões.

É essencial que a postura a adoptar para com o Irão não incorra nos mesmos parâmetros que levaram aos erros cometidos noutros palcos, como no Afeganistão ou no Iraque.

Referências Bibliográficas:

CONESA, Pierre; COVILLE, Thierry (2012) “Até onde pode levar a lógica beligerante anti-Irão?”, Courrier Internacional, nº. 193, p. 51;

NADER, Ralph (2012) “Uma repetição do Iraque?”, Courrier Internacional, nº. 193, p. 49-50;

PRASHAD, Vijay (2012) “Ansiosos por nova invasão”, Courrier Interncional, nº. 193, p. 46-48;

Cooperação na luta contra o terrorismo

A cooperação internacional nasce pouco associada à ideia de solidariedade, mas sobretudo decorrente de um medo comum e de uma tomada de consciência de que há lutas que só podem ser travadas em grupo. Eliti Sato exemplifica que diante da “recente crise financeira internacional, a primeira reacção dos governantes foi a de procurar o entendimento no plano internacional”, para depois concluir que “a cooperação como prática nas relações internacionais não é produto da disseminação de sentimentos altruístas, muito embora esse tipo de sentimento possa existir” (Sato, 2010, p. 50).

Apesar de algumas vezes a cooperação funcionar e estender-se a outras áreas, uma relação de cooperação constrói-se frequentemente para resolver um problema específico (Santos, 2009, p. 145).  Victor Marques dos Santos chama ainda a atenção para o facto de a interdependência constituir “necessariamente, uma restrição à autonomia e a independência dos Estados” (Santos, 2009, p. 90).

Para enfrentar algum problema – mesmo fora do quadro da jurisprudência – facilita que o seu âmbito seja delimitado ao máximo. Contudo, só recentemente é que o terrorismo foi definido pela assembleia-geral da ONU como “actos criminosos com o objectivo de ou calculados para provocar um estado de terror no público geral, um grupo de pessoas ou determinados indivíduos por razões políticas quaisquer que sejam as considerações de cunho político, filosófico, ideológico, racional, étnico, religioso ou outro que possam ser invocados para justificá-los” (Ruiz, 2005, p. 152). Ainda assim, as dúvidas sobre o alcance do conceito persistem, com teóricos a falarem em terrorismo económico ou ambiental, por exemplo.

Quando se fala em condenação de terroristas, importa lembrar que são “entidades marginais sem base territorial” (Ribeiro, 2005). Torna-se, desta forma, difícil julgá-los sob a lei específica de um país pela transnacionalidade das organizações.

Além do mais, mesmo que fosse fácil reunir com uma organização terrorista, quando se fala de cooperação, os terroristas não costumam ter espaço (ainda que não raras vezes as autoridades espanholas tenham oferecido diálogo à ETA se a organização separatista anuísse em baixar as armas). É, aliás, moralmente condenável perante a opinião pública tentar qualquer espécie de conversações perante atentados como os de 11/9. “A opinião pública comove-se com as brutalidades ocasionadas” (e toma o partido das vitimas) e, neste contexto, os governos dos estados soberanos “dificilmente podem justificar a negociação com os grupos terroristas” (Wilensky e Januário, 2003, p. 159).

Contudo, perante a sensação de medo que o terrorismo espalha por todo o planeta, os políticos vêem-se impelidos a fazer algo, sobretudo algo que responda à sede de vingança da população, sirva para unir os cidadãos e ainda legitimar a autoridade do governo perante uma crise. Após o 11/9, essa necessidade foi realizada pela via militar, atacando os talibãs que acolheram a Al-Qaeda no Afeganistão, perante a dificuldade de encontrar o rosto e/ou o terreno do inimigo. “Um Estado não pode manter-se indiferente, quando se tenham realizado actos terroristas que atentem contra a sua soberania, nomeadamente quando os mesmos tenham sido preparados noutro(s) Estado(s), tendo sido este(s) último(s) claramente negligente(s) na sua actividade preventiva” (Wilebsky e Januário, 2003, p. 43).

A 28 de Setembro, poucos dias antes do início da intervenção no Afeganistão, a ONU aprovou a resolução 1373/2001, que obriga os actuais 190 membros da organização, entre os quais o Afeganistão. Esta resolução veio reafirmar o princípio, consagrado na resolução 2625, de 1970, de que “todos os Estados têm o dever de se abster de organizar, instigar, auxiliar ou participar em actos terroristas noutros Estados ou de aquiescer em actividades organizadas dentro do seu território que visem a prática de tais actos”. Esta resolução cita a 1368/2001, que inovou por a ONU autorizar a legítima defesa para responder a um ataque terrorista, o que constituiu um marco inédito no Ordenamento Jurídico Internacional (Lucena, 2003). Manuel de Almeida Ribeiro frisa que o 11 de Setembro trouxe uma “alteração no sentido do alargamento do conceito de legitima defesa preventiva”, para além de implicar mudanças nas “políticas externas de grande parte dos Estados” (Ribeiro, 2005).

Recorde-se que na luta contra o terrorismo, lançada logo após o 11/9, os EUA assumiram uma atitude implacável e fizeram um ultimato aos restantes países: “Ou estão connosco ou com os terroristas”, disse o presidente de então. “A partir deste dia, cada nação que continuar a apoiar ou a proteger o terrorismo será vista pelos Estados Unidos como um regime hostil, acrescentou George W. Bush (Adventistas, 2001).  Desde logo, os Estados foram obrigados a assumir uma atitude mais activa na luta contra o terrorismo dentro das suas fronteiras, até mesmo pela necessidade de manterem relações amigáveis com Washington.

Outra medida anunciada pelo presidente americano neste discurso, no Congresso, foi a criação de um órgão de segurança interna. Bush disse que os esforços antiterrorismo de diversas agências governamentais deviam passar a ser conduzidos ao mais alto nível e nomeou o governador da Pensilvânia, Tom Ridge, para o cargo.

Paralelamente, a União Europeia, por exemplo, reforçou a integração na sua política de segurança, em especial na área da prevenção. Em 2003, Javier Solana, então Alto Representante para a Política Exterior e Segurança Comum da UE, defendia que a luta contra o terrorismo requer “uma mistura de meios de inteligência, políticos, militares e outros” (Solana, 2003, p. 12). Maria do Céu Pinto lembra que a UE pôs em prática um programa de contra-terrorismo, adoptando “imediatamente actividades militares, financeiras, legais, policiais, de informação e de investigação, juntamente com uma campanha de prevenção para erradicar as causas do terrorismo”, apostando sobretudo em tentar uma solução pacífica para o conflito israelo-palestiniano. Ao contrário desta estratégia abrangente, frisou, a política da administração Bush centrou-se, “em primeiro lugar, nos sintomas e manifestações do terrorismo” (Encontro Eurodefende de Jovens Europeus, 2004, p. 30).

Importa ainda referir que a NATO tem sido palco de desacordos quanto à importância que a luta contra o terrorismo deve ocupar na sua agenda.

Já na assembleia-geral da ONU de 30 de Agosto de 2002, foi exposto que o terrorismo só pode ser combatido com um esforço global de toda a comunidade internacional, “sob os auspícios das Nações Unidas” (Nogueira, 2004, p. 243).

Contudo, esta cooperação está longe de acontecer, numa altura em que o próprio temor do terrorismo decresceu junto das sociedades, deixando consequentemente de ser uma das prioridades dos governantes.

Referências bibliográficas:
  • ADVENTISTAS (2001), “Bush aponta três inimigos: Bin Laden, Talibã e quem ficar contra os EUA”, in http://www.adventistas.com/setembro2001/not200901.htm
  • ENCONTRO EURODEFENDE DE JOVENS EUROPEUS (2004), Segurança e defesa europeia: um desafio do presente, Lisboa, Eurodefense.
  • LUCENA, Gustavo Carvalho Lima de (2003). “A recepção da chamada "guerra ao terror" pelo ordenamento jurídico internacional”. Jus Navigandi, Teresina, ano 8, n. 168, in http://www1.jus.com.br/doutrina/texto.asp?id=4676 (Consultado em Maio de 2011).
  • NOGUEIRA, Patrícia (2004), “O terrorismo transnacional e as suas implicações no cenário internacional, Universitas - Relações Int., Brasília, v. 2, n.2, p. 221-244, jul./dez. 2004
  • RIBEIRO, Manuel de Almeida (2005), “O Direito da Nova Ordem Internacional”, in Estudos em Homenagem ao Prof. Doutor Joaquim Moreira da Silva Cunha, Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Coimbra Editora.
  • RUIZ, Fernanda (2005), “O julgamento de actos de terrorismo pelo Tribunal Penal Internacional”, Revista do Instituto de Pesquisas e Estudos, Bauru, nº. 44, p. 139-156.
  • SANTOS, Victor Marques dos (2009), Teoria das Relações Internacionais - Cooperação e Conflito na Sociedade Internacional, Lisboa, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.
  • SATO, Eliti (2010), “Cooperação internacional: uma componente essencial das relações internacionais”, R. Eletc. De Com. Inf. Inov. Saúde, Rio de Janeiro, v.4, n.1, p.46-57, mar., 2010 [www.reciis.cict.fiocruz.br]
  • WILENSKY, Alfredo Héctor e JANUÁRIO, Rui (2003), Direito internacional público contemporâneo: responsabilidade internacional do Estado; terrorismo internacional; direito internacional do ambiente; processo de integração Europeia e os Parlamentos Nacionais, Lisboa, Áreas Editora.

sábado, 31 de março de 2012

Terrorismo e globalização

São muitos os autores que encaram o 11 de Setembro como um ponto de viragem na história mundial. Apesar de o terrorismo ser uma realidade quase tão antiga como a humanidade – pelo menos se o conceito for interpretado na sua versão mais ampla – e de já ser uma preocupação da comunidade internacional no século XX, que levou inclusive à formação de legislação antiterrorista, a partir dos atentados contra os Estados Unidos em 2001 o problema saltou para o topo da agenda internacional de muitos países.

Desde logo ficou clara a vulnerabilidade da única superpotência do mundo perante uma forma de 'guerra' tão fácil e de difícil contorno como o suicídio. Ficaram também a nu as fragilidades da globalização - que o mundo moderno e, sobretudo, ocidental se orgulhava de liderar -, bem como os 'buracos' dos sistemas de defesa dos países com grandes arsenais militares.

Um mundo cada vez mais global e sem fronteiras é o terreno ideal para organizações que procuram fugir das autoridades. Através da Internet, é possível às redes terroristas estarem em todo o mundo, organizar atentados com discrição, mudar mentalidades e, inclusive, aprender a fazer bombas de forma fácil e barata.

Legenda: Ataques do 11/9. Créditos: http://filipspagnoli.wordpress.com
 Os terroristas estão disseminados por todos os continentes, sobretudo nos países que atacam, e não raras vezes são jovens que cresceram em sociedades que os marginalizam e que não lhes dão emprego. Esta discriminação agravou-se com muitas das medidas tomadas no âmbito da luta contra o terrorismo após o 11/9. Num primeiro momento, foi o presidente norte-americano a fazer uma divisão entre amigos e inimigos. Entretanto, se alguns ocidentais chegaram a mudar de carruagem num comboio ao verem um muçulmano, as próprias autoridades também não assumiram um comportamento exemplar, com, por exemplo, muitos responsáveis pela segurança de aeroportos a mostrarem-se demasiado desconfiados perante crentes em Maomé.

Em cenários destes, muitas jovens muçulmanos – inspirados por outros exemplos e aliciados por organizações como a Al-Qaeda - encontram algum sentido para a sua vida em causas como a Jihad Menor, que garante o estatuto de heróis aos suicidas islamistas. Só assim se perceber porque é que o ataque de 7 de Julho em Londres foi levado a cabo por indivíduos que nasceram no Reino Unido.

Apesar desta discriminação que se acentuou no início do XXI, é  preciso ter em conta que as divisões entre mundo ocidental e mundo muçulmano são antigas. Basta recordar, por exemplo, o apoio dos EUA a Israel na ocupação da Palestina, algo reprovado pelos muçulmanos. João Marques de Almeida frisa que se existem causas que explicam o aparecimento da Al-Qaeda, “elas resultam em larga medida de erros políticos das potências ocidentais no Médio Oriente” e de “graves problemas económicos e políticos que afectam as sociedades muçulmanas”. Dando mais um passo atrás na história, vê-se a queda do Império Otomano e a perda do domínio muçulmano no mundo. José Anes realça, a este propósito, que a “humilhação é a palavra-chave para se compreender as motivações profundas dos terroristas religiosos e islamistas em particular”. (AAVV, 2007, p. 173).

A par desta dicotomia é ainda possível falar de outras, como a que afasta países pobres de ricos. José Anes destaca que, “depois da falência das grandes ideologias laicas”, uma “superestrutura religiosa fundamentalista radical” surge como “a última reserva de identidade resistente face às injustiças sociais, económicas e político-militares e face à ameaça cultural e religiosa ocidental” (ibidem).
Por tudo disto, Alcino Cruz alerta que “todos os países ocidentais podem ter a certeza de que não terão descanso (…) até que os propósitos do Islão sejam concretizados”, ou seja, até que o Islão se espalhe por todo o mundo (Cruz, 2002, p. 34).

Esta realidade permite perceber o que levou Samuel P. Huntington a defender em 1993 que o choque de civilizações iria dominar a política internacional após o fim da Guerra Fria.

Referências bibliográficas:

  • AAVV (2007), Religiões e Política Mundial, Lisboa, Público e Universidade Autónoma de Lisboa. 
    CRUZ, Alcino (2002), O pensamento e a humilhação das mulheres da fé islâmica, Lisboa, Campo Grande Editora.
     

 

domingo, 25 de março de 2012

"As guerras também se inventam?"


Deixo-vos abaixo um artigo de opinião, que podem encontrar na Courrier internacional deste mês, um tanto pertinente.



«As guerras também se inventam?

Nos anos 60, Che Guevara lançou uma palavra de ordem antiamericana que ficou célebre: “É preciso criar um, dois, três Vietnames…” Meio século depois, Washington parece apostado em criar não um mas vários Iraques, senão diversos Afeganistões. É certo que a perspetiva de um Irão com capacidade nuclear é assustadora, mas há qualquer coisa de familiar no bombardeamento mediático sobre o país dos ayatollahs. A Agência Internacional para a Energia Atómica (AIEA) ainda não encontrou provas de que o país esteja, de facto, a construir bombas nucleares. Os serviços secretos ocidentais também não. Mas EUA e EU avançaram já com sanções (que atingem mais o povo iraniano que a clique dirigente), enquanto a marinha norte-americana ocupa o Golfo Pérsico. Supostamente, Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça e, por isso, foi invadido pelos EUA em 2003. Os inspectores da ONU nunca as tinham conseguido encontrar e, uma vez que o país ocupado e o ditador derrubado, nem a CIA, nem as tropas especiais americanas lhes descobriram o rasto. Em contrapartida, o país ficou destruído, libertaram-se os demónios da violência sectária e subverteram-se os equilíbrios geoestratégicos do Médio Oriente.

O paralelo entre o Irão de Ahmadinejad e o Iraque de Saddam salta à vista, mas vale a pena recontar a História dos últimos 60 anos. Em 1953, com a vitória do republicano Eisenhower nos EUA e o regresso ao poder dos conservadores britânicos (chefiados por Churchill), os serviços secretos dos dois países montaram um golpe de estado no Irão para afastar o Governo nacionalista de Mossadegh que ousara pôr em causa o monopólio das companhias petrolíferas inglesas. O ditador “inventado” pelo Ocidente foi o Xá da Pérsia, que conseguia incompatibilizar-se com os republicanos laicos e com os fundamentalistas xiitas. A revolução que o derrubou em 1979 degenerou num Estado teocrático e humilhou os EUA, fazendo reféns durante 444 dias os funcionários da embaixada em Teerão. A partir de 1980, americanos, franceses e ingleses armaram o Iraque laico e republicano de Saddam (que era uma ditadura sinistra mas para o caso servia) contra o Irão dos ayatollahs. O banho de sangue durou oito anos e ninguém ganhou. Irritado por ter arruinado o país, não ter conquistado território e não ter recebido compensações ocidentais, Saddam invadirá o Kuwait em 1990. Consequência directa: a I Guerra do Golfo, em 1991. A presença de tropas dos EUA em território saudita contribui para exasperar um então ilustre desconhecido que fora aliado circunstancial da CIA na guerrilha movida pelos mujahedins afegãos aos invasores soviéticos. Chamava-se Bin Laden e fundou a AL-Qaeda. O resto da sua biografia é do conhecimento geral.

Será que o Irão xiita de Ahmadinejad menos respeitador dos direitos humanos do que a Arábia Saudita (potência sunita apoiada pelos EUA) que lhe disputa a hegemonia regional? Será mais difícil conviver com um futuro Irão nuclear do que uma Coreia do Norte paranóica ou um Paquistão apertado entre a ameaça constante de golpe militar e a cumplicidade com os talibãs e a Al-Qaeda? Tem Israel, que, ao contrário do Irão, não assinou o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, o direito de possuir bombas atómicas e de fazer ataques preventivos ao Iraque (1981) e à Síria (2007) para estes não as desenvolverem?

Na vizinha Síria, onde a Primavera Árabe luta por se impor, com a Rússia e China a protegerem escandalosamente um ditador assassino, a ONU vai finalmente intervir com armas? Ou preferirão os serviços secretos ocidentais, o Qatar e a Arábia Saudita armar uma guerrilha fundamentalista sunita para derrubar um Al-Assad apoiado pelos xiitas de Teerão? Foi assim em 1980 no Afeganistão contra os soviéticos e todos sabemos como a história (ainda não) acabou.»

sábado, 24 de março de 2012

Curso de Informações e Segurança

Recomendamos vivamente o curso de Informações e Segurança que terá lugar no ISCSP já a partir de 16 de Abril, até porque como alunos de Relações Internacionais tivemos a cadeira com o mesmo nome leccionada exactamente pelo mesmo Professor, que abre agora esta oportunidade de aprendizagem a pessoas que não estejam integradas no mestrado.

Nesta formação é possível perceber como são tomadas certas decisões ao nível das Informações Estratégicas – tão úteis para Estados e outros tipo de entidades, como empresas – e Informações de Segurança e ainda aprender técnicas de procura e de análise próprias dos Serviços de Informações e de serviços privados de Intelligence.

Pode obter mais informações sobre o curso aqui.

quarta-feira, 21 de março de 2012

"Ouro Azul: A Guerra Mundial pela Água"

A água, esse bem escasso, e essencial à natureza humana, será causa de conflito no decorrer do presente século. Este recurso natural, desproporcionalmente distribuído, tem sido nos últimos tempos, e será nos próximos, a razão pela qual homens defrontam-se, pela sobrevivência.

Desde finais do século XX que assistimos a conflitos regionais, especialmente em África e no Médio Oriente, com repercussões internacionais, nomeadamente ao uso, domínio e direitos sobre a água.

Aquilo que deveria ser um direito humano, «(…) um pré-requisito para que os outros direitos humanos sejam possíveis», como menciona a Amnistia Internacional, não é reconhecido como tal no 6º Fórum Mundial da Água, que decorreu em Marselha, no presente mês.

São vários os estudos relativos à escassez da água e seus efeitos na vida humana. As alterações não têm apenas impacto ambiental, mas também político, económico, tecnológico e sanitário. A segurança humana é colocada em causa!

Segundo o Relatório do Desenvolvimento Humano, “Escassez de água — riscos e vulnerabilidades associados”, o grau de risco de escassez de uma dada região é calculado através da equação água/população. Como tal adoptaram que 1.700 metros cúbicos por pessoa seriam o limiar mínimo nacional para responder as várias necessidades. Estipularam ainda que uma disponibilidade inferior a 1000 metros cúbicos representa uma situação de escassez de água, e que inferior a 500 metros cúbicos, escassez absoluta.

Cerca de 700 milhões de pessoas, de 43 países, vivem abaixo do limiar mínimo, ou seja vivem em situação de carência de água. Estima-se que em 2025, mais de 3 mil milhões de pessoas viverão em países sujeitos a pressão sobre os recursos hídricos, dos quais, 14 países se encontrarão numa situação de escassez efectiva. As áreas mais afectadas do globo são o Médio Oriente e África Subsariana. Ao longo dos tempos temos vindo a assistir a conflitos principalmente nestas duas regiões. Enquanto que no Médio Oriente, região mais atingida pela pressão da falta, dispõem apenas de 1.200 metros cúbicos por pessoa, abaixo do mínimo estipulado, na África Subsariana deparamo-nos com o maior número de países pressionados pela carência de água, um quarto da população depara-se com a escassez desse bem.

Ainda de acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano, prevê-se que em 2025, a pressão de falta de água sob a África Subsariana intensificar-se-á, sendo que afectará 85% da população. No Médio Oriente e no Norte de África a situação agravar-se-á. As reservas de água médias situar-se-ão em 500 metros cúbicos por pessoa, ou seja escassez absoluta. Estimam que mais de 90% da população da região viverá em países atingidos pela escassez de água. Outra problemática será a densidade populacional, países como a China e a Índia, densamente povoados, farão parte dos países ameaçados pela falta de água.

Como supramencionado, os conflitos tendem a aumentar uma vez que o recurso hídrico, água, tende a escassear, nomeadamente em zonas de grande concentração populacional. Se analisarmos o globo deparamo-nos com várias tensões, nomeadamente no Sri Lanka com os Triges Tamil, entre a Índia e o Paquistão, entre o Bangladesh e a Índia, entre Israel e os territórios da Palestina e da Jordânia, entre o Egipto e o Sudão, entre o Egipto e a Etiópia, entre a Turquia, Síria e o Iraque, e outros mais, que marcaram a história.

Steve Lonergan refere ainda que em muitos dos casos a água seria usada como “arma” no seio do conflito. Desde os primórdios da humanidade até a actualidade vários são os exemplos.

Num cenário quase que apocalíptico a cooperação continua a ser a solução, apesar de todos os entraves. Como menciona Arun P. Elhance, em “Hydropolitics in the Third World Conflict and Cooperation in International River Basins”, «a cooperação hidropolitica pode demorar muito tempo a desenvolver-se, pode não levar necessariamente ao desenvolvimento efectivo e fixação dos recursos partilhados de água, pode não satisfazer ou beneficiar todas as partes de igual maneira e pode não ser possível sem um mediador; no entanto, uma vez conseguida, tal cooperação durará».


Aos interessados recomendo a visualização do documentário "Ouro Azul: A Guerra Mundial pela Água".

domingo, 18 de março de 2012

Terrorism and Mass Media: An insight on Jihadist strategy

Nota: Texto gentilmente cedido aos alunos do blogue Ocidente Subjectivo por Heitor Barras Romana, Professor Associado do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.

There is a scholarly consensus around the construction of the concept of terrorism as:

“An anxiety-inspiring method of repeated violent action, employed by (semi)-clandestine individual, group or state actors, for idiosyncratic, criminal or political reasons, whereby – in contrast to assassination – the direct targets of violence are not the main targets. The immediate human victims of violence are generally chosen randomly (targets of opportunity) or selectively (representative or symbolic targets) from a target population, and serve as message generators. Threat - and violence – based communication processes between terrorist organization and victims are used to manipulate the main target (audiences), turning into a target of terror, a target of attention, depending on whether intimidation, coercion, or propaganda is primarily sought” (Alex Schmid, A.Jongman, 1984).

The terrorism emphasizes what we call "ontological process" factors including psychological, social and cultural, which provide the setting up the analysis of the phenomenology of terrorism.
Still on the categorization of terrorism is essential to stress is essential to stress the existence of strategic objectives and tactical objectives. Those objectives influence and determine one or more subsystems of the international component of the decision-making, in order: to generate functional imbalances, which can affect the priorities on the agendas of international institutions, multilateral relations and even political-military alliances. Thus, We are in the presence of a context of globalization of terrorism, without territorial and geographical configuration.

In the analysis which is on the "geopolitics of terrorism," Remi Baudoui (2009) puts the phenomenon of transnational terrorism as part of a new interpretation of space and territory as a platform of the organization of terror. This is evident in the passage of semantic designation of "terrorist group" Al Qaeda applied to "terrorist network". This change reflects the evolution itself and adjustment of operating ALQaeda. Indeed, it appears that initially, Al Qaeda is organized around the defense of Muslim lands in concrete against the expansionist enemy in Afghanistan. In a second phase, the aim is to remove the infidels of the spaces that form the basis of Islam's spiritual collective memory, or liberate Jerusalem. A third phase corresponds to the constitution of global Jihad, without borders and citizenship. This "territorial"/"deterritorialization" of the phenomenon of Islamic terrorism matrix is a major challenge, because it seeks to become a legitimate identity that evolves a “local” territory toward a global space, that means – the “glocalization” of terrorism.

Any study of global terrorism as a geopolitical issue necessary need the approach on the use of mass media as a part of terrorism propaganda strategy and as a part of its “political” agenda as well.

Marshal McLuham, one of the most celebrated researchers on the social impact of the mass media, came to the relatively precocious conclusion that “without communication terrorism would not exist”. This short sentence holds a truth that has remained unchanged during the last two decades. It is not uncommon to cite the relationship between the diffusion of terrorist messages and the existence of modern mass media (Manuel Soriano, 2008:2).

“Terrorism is theatre” and terrorist attacks carefully choreographed to attract the attention of the media. In turn, the media responds to these overtures proving unable to ignore what has been accurately described as “ an event”, according to Bruce Hoffman, quoted by the report on” Mass Media and Terrorism” conducted in 2008 by the Institute for Safety, Security and Crisis Management, under the auspices of European Union .

In this study, the researchers considering that the media are very well suited for the purposes of terrorists. Several theories concerning characteristics – or capabilities - of the media explain part of this phenomenon. Two of the most important media theories are “agenda setting and framing”.

“Agenda setting” is the theory that the more attention a media outlet pays to a certain phenomenon, the more importance the public attributes to such an issue. The theory of “framing” states that the way a news item is presented can have an influence on how it is interpreted or understood by the audience  ISSCM,2008:6 apud Scheufele and Tewksbury, 2007:11-12).

For Paul Wilkinson (1997), in using TV, radio and the print media the terrorists generally have four main objectives:

1) To convey the propaganda of the deed and to create extreme fear among their target group;

2) To mobilize wider support for their cause among the general population, and international opinion by emphasising such themes as righteousness of their cause and the inevitability of their victory;

3) To frustrate and disrupt the response of the government and security forces, for example by suggesting that all their practical anti-terrorist measures are inherently tyrannical and counterproductive; and

4) To mobilize, incite and boost their constituency of actual and potential supporters and in so doing to increase recruitment, raise more funds and inspire further attacks.

Other author, Brigitte Nacos, stated that terrorists have four general media - dependent objectives when they strike or threaten to commit violence.

The first is to gain attention and awareness of the audience, and thus to condition the target population ( and government) for intimidation: create fear.

The second goal is recognition of the organizational motives. They want people to think about why they are carrying out attacks.

The third objective is to gain the respect and sympathy of those in whose name they claim to attack.

The last objective is to gain a quasi-legitimate status and a media treatment similar to that of legitimate political actors (Nacos, 2007:20).

By regularly appearing in the media, terrorists are trying to become a legitimate representative of their own cause. Whether or not the audience agrees is, for this objective, of less importance. The theory is that merely the fact that they are treated by the media much like regular, accepted, legitimate world leaders gives them a similar status. This is mainly achieved by getting personal airtime through interviews and recorded videos or messages. Framing is very important in this. If terrorists having the media frame their leader much like a “regular” leader would be framed, the audience may got the impression that the two are comparable. If, on the other hand media make a clear distinction between actual world leaders and terrorist leaders, the audience may do so too. ALQaeda use this strategy, by regular sending in videos to the media portraying their leaders as leaders of the world (ISSCM,2008).

Michael Wieviorka, a French sociologist quoted by Manuel Soriano(2008:6) splits the relationship between terrorists and the media into four different levels:

1) Complete Indifference - The terrorists’ goal is to terrorize their victims, without seeking to attain media attention for their acts. There is no expectation that the press will become involved. This French author does not hesitate to mention that this situation is highly unusual;

2) Relative Indifference – The terrorists are not concerned with being on the news, even though they are conscious of the power that explaining their cause in currently existing media can provide them;

3) A Media-Oriented strategy – The terrorists are not only aware that the press can expand the scope of their words and actions, they also perform a series of operations based on the knowledge that they possess on the dynamics and functioning of the news producers. After well thought manipulations, the news media becomes integrated in the terrorist group’s actions;

4) Complete Breakaway – This is case of terrorists that see journalists and reporters as enemies that must be destroyed, putting them on the same level as other direct adversaries. The press ceases to be an entity that should be cynically manipulated. It is instead viewed as the appendix of a system that must be destroyed.

Soriano places al Qaeda in the last two of Wievioska’s levels of Relationship - Media oriented and Complete Breakway.

In our opinion, in the Relationship – Media oriented strategy the Alqaeda tends to use- for example- special relationship within the Aljazeera to bolster their political agenda, a logic that is very close to the latent political communication processes used in the West by pressure groups and interest groups that have particular access to mass media. This leads to Al Qaeda that should be observed and understood not as a messianic movement uniting the "Umma", but rather as a project to capture and exercise of power, which has as one of its main elements, the "media management processes".

Thus, in this “media management processes”, Al Qaeda has developed a new strategy concerning a bet on the new information technology use – the cyberspace and internet.

Like is stressed by Soriano, Al Qaeda has learned from the propagandistic experience of other terrorist groups that surround it. Many of them almost never establish direct contact with the mass media, concentrating their communicative activities in cyberspace. These methods have prevented them from receiving wide media attention. Paradoxically, the mass media themselves use the web to look for footage and messages that act to further illustrate their news stories. The very existence of these elements on the Internet isd a story in and of itself, without the need for other intermediaries. In this way, the news is compelled to reflect and present those events that anonymously have the capability to gain noteworthy repercussions on international public opinion.

For Al Qaeda, the Internet is not only method to reach the media in a safer and more immediate way, it also is a turning point in their communication strategy given that the web devalues the importance of traditional media. For the first time in history, cyberspace allows for there to be direct communication between a terrorist and his “public”. Terrorists control their messages well, always saying exactly what they want to say and when they want to say it (Soriano, 2008:15).

Another example of the use of Internet by terrorist groups is concerning the website Kavkaz Center, which is used as message passing interface by the self-proclaimed Caucasus Emirate. This islamist structure is responsible for several attacks in North Caucasus and Moscow, that is an example the suicide bombings attacks of March 31, 2010 and January 24, 2011.In both situations was through the website Kavkaz Center that the group claimed the attacks.

Kavkaz Center it is a quite interesting case study since its media strategy has three main goals: Transmit the Jihadist message and mobilize support from “Umma ” around the world; transmit the idea of the suicide terrorism as an act of heroism; and conduct propaganda actions to demoralize the Russian strategy toward the combat of terrorism in North Caucasus.

In sum, I would like to stress three main points:

1) The mass media and particularly the network media have become operational tools for terrorists ensured them a wide capacity of penetration in different communication arenas;

2) They adapt and adopt their messages and communicational methods accordingly the audiences and collective psychological behavior;

3) The mass media strategy developed by the global terrorist threat is part of a geopolitical agenda in order to create a “war” between Islam and the Western Civilization values.

References:

Badoui, Remi(2009) -  Géopolitique du Terrorisme, Armand Colin, Paris

Institute for Safety, Security and Crises Management(2008) – Report  on Mass Media and Terrorism. European Union

Nacos, Brigitte  (2oo7) – Mass-mediated terrorism: The central role of the media in terrorism and counterterrorism( 2nd edition) Rowman & Littlefield Publishers, Inc, Lanham.

Schmid, Alex (1984) – Political Terrorism: a new guide to Actors, Authors, Concepts, data bases, Theories, and Literature. Transaction Publishers, London.

Soriano, Manuel (2008) – Terrorism and the Mass Media after AL Qaeda: A Change of Course?, Athena Intelligence Journal,Vol.3, No2. www.athenaintelligence.org

Wilkinson, Paul (1997) – “The Media and Terrorism: A Reassessment” in Terrorism and Political Violence, Vol.9, No2 ( Summer) pp.521-64, Published by Frank Cass, London.