O livro “Mundo em Colisão”, de Ken Booth e Time Dunne, começa por
abordar a guerra contra o terrorismo, em concreto as suas causas e as
suas consequências, e a necessidade de criar alternativas à mesma que
passem pela construção de um novo mundo onde impere o “poder da
comunidade” e o combate de outros fenómenos, muitos deles mais
problemáticos do que o terrorismo, como a pobreza.
Os autores
apontam o 11 de Setembro como uma data que marca uma crise mundial
histórica pela colisão de mundos que representa – o Ocidental,
personificado pelos EUA, e o mundo muçulmano (ainda que esta colisão
tenha paralelismos com outras, como o conflito israelo-palestiniano) -, e
defendem a necessidade de introspecção dos dois lados.
É
necessário pôr de lado os mitos criados em torno da sociedade
norte-americana – que surgiram com o propósito de a unificar, tornando-a
atraente – e avaliar a postura que o país tem tido como maior potência
do mundo, à luz da ideia de que quanto maior o poder maior a
responsabilidade. Com efeito, os Estados Unidos podem, por exemplo, ser
acusados de fundamentalismo de mercado num mundo virtual. Isto leva Jung
Mo Sung diz que são precisos novos valores morais, já que as formas de
“definir o bem e o mal, o certo e o errado já não estão a funcionar para
os desafios do nosso tempo” (Sung, 2006).
A introspecção do lado
do mundo muçulmano deverá, assim, passar também por um olhar sobre o
fundamentalismo, que, ressalve-se, existe em várias religiões, mas está
sobretudo ligado ao Islamismo. Tal como os fundamentalistas de mercado,
os terroristas islâmicos também se arriscam a “parasitar” as causas que
defendem (Innerarity, 2004, p. 61).
Samuel P. Huntington defendeu
que o choque de civilizações iria dominar a política internacional após o
fim da Guerra Fria. Huntington disse que “os alinhamentos culturais são
a chave da nova ordem mundial” (Bertonha, p. 177), pelo que grandes
blocos económicos e políticos que reunam culturas diversas produzirão
“inevitavelmente resultados modestos” (Bertonha, p. 178).
Com
efeito, basta olhar para a relutância que os europeus ocidentais têm em
incluir uma Turquia islâmica na União Europeia para dar razão a
Huntington.
Por outro lado, depois de terem perdido o domínio do
mundo e assistido à queda do Império Otomano, os muçulmanos encaram o
Ocidente como inimigo, sendo que num mundo globalizado, em que a
Internet chega a todo o lado e os produtos culturais norte-americanos se
disseminam pelos quatro cantos do globo, cresce o receio do fim da
cultura muçulmana.
João Marques de Almeida entende que se existem
causas que explicam o aparecimento da Al-Qaeda, “elas resultam em larga
medida de erros políticos das potências ocidentais no Médio Oriente”,
como o apoio a Israel na violação da independência política dos
palestinianos, e de “graves problemas económicos e políticos que afectam
as sociedades muçulmanas”.
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| Ataque ao World Trade Center. a 11/9. Créditos: http://iraqwarnews.net |
A agravar a situação, cada vez mais os
políticos ocidentais tomam medidas de segurança no sentido de criar um
sentimento anti-ocidental. Por isso, um relatório da Open Society
Institute, apresentado em Dezembro de 2009, deu conta que a
discriminação contra muçulmanos está a aumentar na Europa. Questionado
sobre se é possível comparar a situação actual com o que se passou com
os judeus nos anos 30, Martin Rose, director do projecto A Nossa Europa
Comum, citado pelo Público, afirmou que por um lado até “é pior do que
nos anos 30, porque se passa em toda a Europa". "Se combinamos crise com
ignorância, e com o facto de que há gente que se diz muçulmana a
fazer-se explodir, os muçulmanos são um alvo óptimo, quando estamos à
procura de alguém para odiar”, acrescentou. Com efeito, nos últimos anos
tem-se verificado que à medida que se ouvem discursos anti-muçulmanos
crescem no poder partidos de extrema-direita.
Num mundo onde os
terroristas semeiam o medo e, logo, a confusão, e os políticos são
obrigados a fazer algo rápido e visível para combater o inimigo – como,
aliás, actuou a Casa Branca ao invadir o Afeganistão - os executivos
agem, não raras vezes, sem premeditar. Este facto leva Daniel Innerarity
a concluir que “as pessoas têm o direito de estar a salvo também dos
seus protectores” (2004, p. 172).
Esta realidade leva muitos jovens
muçulmanos discriminados na Europa a procurar uma “identidade
alternativa e auto-estima numa suposta vanguarda islâmica global e no
cumprimento de um dever honroso”, perpetrando ataques suicidas (Costa,
p. 41).
Apesar de os autores de “Mundos em Colisão” preferirem
falar em incompreensão mútua do que em choque de civilizações, a verdade
é que este é um dos maiores problemas da actualidade. Quando um
francesa muçulmana tenta banhar-se numa piscina com uma “burquíni”1,
porque assim o exige a sua religião, e é impedida por questões de
higiene existe um choque de culturas.
A ideia de que muçulmanos e
ocidentais devem colocar-se no lugar do outro, como defendem Ken Booth e
Time Dunne, faz todo o sentido, sobretudo, quando alguns executivos
falam em combater o terrorismo e usam-no dentro das próprias fronteiras,
dado que, por exemplo, a tortura é uma forma de terror.
Os autores
chamam ainda a atenção para a perda de vidas humanas quando se luta
contra terroristas. “Quando nos convencemos que a guerra é a única forma
de prevalecer (como os jihadistas fizeram), tornamo-nos hipócritas em
relação à nossa causa (tal como os islamistas) e arriscamo-nos a apagar a
distinção entre guerreiros e não combatentes”, alertam (p. 13).
“Se o primeiro passo é desafiar a noção de um mundo bifurcado, a segunda
é aceitar” que existem outros terrores, como a pobreza (p. 8), defendem
os autores de Mundos em Colisão. Se a pobreza aumenta também cresce a
facilidade de acesso a armas de destruição maciça.
Por tudo isto, os
autores entendem que, ao contrário dos políticos, os líderes pensam que
os problemas de hoje não são os verdadeiros problemas, mas apenas os
sintomas.
A par do terrorismo, Booth e Dunne lembram o fanatismo
religioso dos talibãs, o hipernacionalismo nos Balcãs e o anti-semitismo
na Europa do Leste, para defenderem a necessidade de ponderar as causas
destes problemas actuais, num mundo em que as pessoas precisam de algo
em que acreditar.
Numa altura em que a Al-Qaeda está em pelo menos
40 países e potenciais terroristas nascem todos os dias, é preciso
repensar o significado de vitória e apostar na construção de um mundo de
comunidade, em que a globalização humanitária seja uma prioridade,
advogam os autores de “Mundos em Colisão”.
Referências
bibliográficas:
- ALMEIDA, João Marques de, “O Choque das
Civilizações e o 11 de Setembro”, in
http://www.ipri.pt/investigadores/artigo.php?idi=5&ida=31
(Consultado em Janeiro de 2011).
- BOOTH, Ken e DUNNE, Tim (2002),
Mundos em colisão: terror e o futuro da ordem global, Nova Iorque,
Palgrave Macmillan.
- BERTONHA, João Fábio, “O choque das civilizações e
a composição da ordem Mundial” (resenha), in Contexto Internacional,
vol. 19, nº 1, Jan/Jun 96, p. 175-179, Rio de Janeiro.
- COSTA, Helder
Santos (2003), O Martírio no Islão, Lisboa, Instituto Superior de
Ciências Sociais e Políticas.
- INNERARITY, Daniel (2004), A Sociedade
Invisível, Lisboa, Teorema.
- SUNG, Jung Mo (2006), “Globalização e a
'batalha moral'”, in
http://www.adital.com.br/site/noticia2.asp?lang=PT&cod=24457
(Consultado em Janeiro de 2011).