quinta-feira, 8 de março de 2012

Kony 2012



Joseph Kony, líder do Exército de Resistência do Senhor (LRA)em 2005 foi acusado pelo TPI, por rapto de milhares de crianças, transformando-os em soldados os rapazes e em escravas sexuais as raparigas. Outros terá executado ou mutilado. Kony e a sua organização é ainda responsável pelas mortes de dezenas de milhares de pessoas no Uganda, República Democrática do Congo, no Sudão do Sul e na República Centro Africana. No pós 11 de Setembro, os Estados Unidos da América classificariam o LRA como organização terrorista.

O vídeo "Kony 2012" realizado pela organização não governamental Invisible Children, pretende que Kony seja capturado e condenado por crimes contra a humanidade. Para tal a organização pretende dar a conhecer Kony ao mundo apelando cooperação dos governantes para a causa que defendem, capturar Kony e acabar com as suas atrocidades no Uganda.

Partilhem pelo maior número de pessoas!
É um dever cívico de cada Homem, pelo bem estar de cada um e por um futuro mais solidário onde não exista espaço para tantas disparidades.

"Mundos em colisão"

    O livro “Mundo em Colisão”, de Ken Booth e Time Dunne, começa por abordar a guerra contra o terrorismo, em concreto as suas causas e as suas consequências, e a necessidade de criar alternativas à mesma que passem pela construção de um novo mundo onde impere o “poder da comunidade” e o combate de outros fenómenos, muitos deles mais problemáticos do que o terrorismo, como a pobreza.

    Os autores apontam o 11 de Setembro como uma data que marca uma crise mundial histórica pela colisão de mundos que representa – o Ocidental, personificado pelos EUA, e o mundo muçulmano (ainda que esta colisão tenha paralelismos com outras, como o conflito israelo-palestiniano) -, e defendem a necessidade de introspecção dos dois lados.

    É necessário pôr de lado os mitos criados em torno da sociedade norte-americana – que surgiram com o propósito de a unificar, tornando-a atraente – e avaliar a postura que o país tem tido como maior potência do mundo, à luz da ideia de que quanto maior o poder maior a responsabilidade. Com efeito, os Estados Unidos podem, por exemplo, ser acusados de fundamentalismo de mercado num mundo virtual. Isto leva Jung Mo Sung diz que são precisos novos valores morais, já que as formas de “definir o bem e o mal, o certo e o errado já não estão a funcionar para os desafios do nosso tempo” (Sung, 2006).

     A introspecção do lado do mundo muçulmano deverá, assim, passar também por um olhar sobre o fundamentalismo, que, ressalve-se, existe em várias religiões, mas está sobretudo ligado ao Islamismo. Tal como os fundamentalistas de mercado, os terroristas islâmicos também se arriscam a “parasitar” as causas que defendem (Innerarity, 2004, p. 61).

     Samuel P. Huntington defendeu que o choque de civilizações iria dominar a política internacional após o fim da Guerra Fria. Huntington disse que “os alinhamentos culturais são a chave da nova ordem mundial” (Bertonha, p. 177), pelo que grandes blocos económicos e políticos que reunam culturas diversas produzirão “inevitavelmente resultados modestos” (Bertonha, p. 178).

     Com efeito, basta olhar para a relutância que os europeus ocidentais têm em incluir uma Turquia islâmica na União Europeia para dar razão a Huntington.

     Por outro lado, depois de terem perdido o domínio do mundo e assistido à queda do Império Otomano, os muçulmanos encaram o Ocidente como inimigo, sendo que num mundo globalizado, em que a Internet chega a todo o lado e os produtos culturais norte-americanos se disseminam pelos quatro cantos do globo, cresce o receio do fim da cultura muçulmana.

    João Marques de Almeida entende que se existem causas que explicam o aparecimento da Al-Qaeda, “elas resultam em larga medida de erros políticos das potências ocidentais no Médio Oriente”, como o apoio a Israel na violação da independência política dos palestinianos, e de “graves problemas económicos e políticos que afectam as sociedades muçulmanas”.

Ataque ao World Trade Center. a 11/9.  Créditos: http://iraqwarnews.net

    A agravar a situação, cada vez mais os políticos ocidentais tomam medidas de segurança no sentido de criar um sentimento anti-ocidental. Por isso, um relatório da Open Society Institute, apresentado em Dezembro de 2009, deu conta que a discriminação contra muçulmanos está a aumentar na Europa. Questionado sobre se é possível comparar a situação actual com o que se passou com os judeus nos anos 30, Martin Rose, director do projecto A Nossa Europa Comum, citado pelo Público, afirmou que por um lado até “é pior do que nos anos 30, porque se passa em toda a Europa". "Se combinamos crise com ignorância, e com o facto de que há gente que se diz muçulmana a fazer-se explodir, os muçulmanos são um alvo óptimo, quando estamos à procura de alguém para odiar”, acrescentou. Com efeito, nos últimos anos tem-se verificado que à medida que se ouvem discursos anti-muçulmanos crescem no poder partidos de extrema-direita.

    Num mundo onde os terroristas semeiam o medo e, logo, a confusão, e os políticos são obrigados a fazer algo rápido e visível para combater o inimigo – como, aliás, actuou a Casa Branca ao invadir o Afeganistão - os executivos agem, não raras vezes, sem premeditar. Este facto leva Daniel Innerarity a concluir que “as pessoas têm o direito de estar a salvo também dos seus protectores” (2004, p. 172).
Esta realidade leva muitos jovens muçulmanos discriminados na Europa a procurar uma “identidade alternativa e auto-estima numa suposta vanguarda islâmica global e no cumprimento de um dever honroso”, perpetrando ataques suicidas (Costa, p. 41).

    Apesar de os autores de “Mundos em Colisão” preferirem falar em incompreensão mútua do que em choque de civilizações, a verdade é que este é um dos maiores problemas da actualidade. Quando um francesa muçulmana tenta banhar-se numa piscina com uma “burquíni”1, porque assim o exige a sua religião, e é impedida por questões de higiene existe um choque de culturas.

    A ideia de que muçulmanos e ocidentais devem colocar-se no lugar do outro, como defendem Ken Booth e Time Dunne, faz todo o sentido, sobretudo, quando alguns executivos falam em combater o terrorismo e usam-no dentro das próprias fronteiras, dado que, por exemplo, a tortura é uma forma de terror.

    Os autores chamam ainda a atenção para a perda de vidas humanas quando se luta contra terroristas. “Quando nos convencemos que a guerra é a única forma de prevalecer (como os jihadistas fizeram), tornamo-nos hipócritas em relação à nossa causa (tal como os islamistas) e arriscamo-nos a apagar a distinção entre guerreiros e não combatentes”, alertam (p. 13).

    “Se o primeiro passo é desafiar a noção de um mundo bifurcado, a segunda é aceitar” que existem outros terrores, como a pobreza (p. 8), defendem os autores de Mundos em Colisão. Se a pobreza aumenta também cresce a facilidade de acesso a armas de destruição maciça.

    Por tudo isto, os autores entendem que, ao contrário dos políticos, os líderes pensam que os problemas de hoje não são os verdadeiros problemas, mas apenas os sintomas.

    A par do terrorismo, Booth e Dunne lembram o fanatismo religioso dos talibãs, o hipernacionalismo nos Balcãs e o anti-semitismo na Europa do Leste, para defenderem a necessidade de ponderar as causas destes problemas actuais, num mundo em que as pessoas precisam de algo em que acreditar.

    Numa altura em que a Al-Qaeda está em pelo menos 40 países e potenciais terroristas nascem todos os dias, é preciso repensar o significado de vitória e apostar na construção de um mundo de comunidade, em que a globalização humanitária seja uma prioridade, advogam os autores de “Mundos em Colisão”.  

Referências bibliográficas:

- ALMEIDA, João Marques de, “O Choque das Civilizações e o 11 de Setembro”, in
http://www.ipri.pt/investigadores/artigo.php?idi=5&ida=31 (Consultado em Janeiro de 2011).
- BOOTH, Ken e DUNNE, Tim (2002), Mundos em colisão: terror e o futuro da ordem global, Nova Iorque, Palgrave Macmillan.
- BERTONHA, João Fábio, “O choque das civilizações e a composição da ordem Mundial” (resenha), in Contexto Internacional, vol. 19, nº 1, Jan/Jun 96, p. 175-179, Rio de Janeiro.
- COSTA, Helder Santos (2003), O Martírio no Islão, Lisboa, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.
- INNERARITY, Daniel (2004), A Sociedade Invisível, Lisboa, Teorema.
- SUNG, Jung Mo (2006), “Globalização e a 'batalha moral'”, in http://www.adital.com.br/site/noticia2.asp?lang=PT&cod=24457 (Consultado em Janeiro de 2011).

domingo, 4 de março de 2012

Crises e política, segundo Steven K. Vogel

Steven K. Vogel (http://polisci.berkeley.edu/)
Nota: Por cortesia de Paulo Yokota, do portal Ásia Comentada, que nos alertou para este artigo e nos facultou a tradução do mesmo.

Steven K. Vogel, professor na UCLA (University of California, Los Angeles) e especialista no Extremo Oriente mostra, no artigo “Uma crise da democracia japonesa?”, publicado no Nikkei em Fevereiro, algumas preocupações com o Japão, em particular a necessidade de estimular a economia e de recuperar o país após o desastre do ano passado, numa altura em que a dívida pública do país está em crescendo, o que exige um aumento da carga fiscal.

O autor avisa que economias encaradas como ricas não devem lançar-se em cortes desmesurados dos seus gastos, sob pena de uma nova queda da economia, aliada a uma falta de confiança dos consumidores, a uma redução do consumo e a um aumento do desemprego.

O autor diz que actualmente é quase consensual que elevados gastos governamentais e altos impostos prejudicam a prestação económica de um país. Contudo, adverte, os países com maior carga fiscal e mais gastos conseguem melhores resultados quando são avaliados indicadores de bem-estar.

Steven K. Vogel defende que é preciso envolver o maior número de autores na política e não apenas as empresas sem os seus trabalhadores, como, segundo Harold Wilensky, acontece no Japão.

O especialista em assuntos do Extremo Oriente entende que é nos momentos de crise para a economia que salta a vista o facto de os países mais ricos não conseguirem enfrentar a sua insuficiência política. Daí que defenda uma aposta em mais burocracia, uma burocracia que permita uma negociação eficaz entre os diversos grupos de interesse. Ao mesmo tempo, considera, é necessário que os partidos consigam apresentar aos eleitores políticas económicas efectivas.


Pode ler o artigo na íntegra aqui.


quinta-feira, 1 de março de 2012

“Frost/Nixon”, entre a conquista e a efemeridade do poder


"O poder é o afrodisíaco mais forte."
Henry Kissinger1.


O filme “Frost/Nixon”, de Ron Howard, respira universalidade. Como observa J. Oberman, a temática do filme, que conta a história de um apresentador de televisão que consegue arrancar um pedido de desculpa aos norte-americanos por parte de Richard Nixon pela seu envolvimento no escândalo de operações ilegais contra a oposição durante a campanha eleitoral de 1972, que culminou com a sua vitória esmagadora, “não é o caso Watergate, mas as suas consequências” (Oberman, 2008), que se relevaram imediatamente indeléveis. Partindo do princípio de que o fenómeno do poder constitui “uma realidade generalizável a todo o plano relacional”, (Santos, 2007, 248), este filme aborda várias relações de poder.

Desde logo, a partir do caso Watergate, o jornalismo tornou-se mais agressivo e fiscalizador relativamente ao poder presidencial - até então encarado como quase inquestionável – aproximando-se assim da qualificação que lhe é atribuída de “Quarto Poder”. Muitos jornais passaram a assumir a sua preferência política. Como espelho da sociedade ou como precursor das ideias dominantes na mesma, o jornalismo, a partir deste caso, despertou para o facto de os que políticos podem ter segredos e “não devem ser confiáveis” (Browning, 2008). O caso Watergate, resultante de um desejo de continuidade de poder político por parte de Robert Nixon, trouxe desilusão e, como escreve Silvia Browning, mudou bastante o cenário político, bem como as “políticas internas e externas” dos EUA (Browning, 2008). De acordo com Adriano Moreira, “a adesão ou repulsa” entre a população e governo tem um efeito imediato sobre o poder efectivo (Moreira 2002, 255) de um Estado a nível internacional. Neste sentido, dentro daquilo que o autor define como capacidade de acção colectiva enquanto recurso disponível de um Estado – no âmbito do seu poder potencial2 - encontra-se o grau de coesão nacional, o carisma da liderança e a aceitação das chefias. Tudo isto saiu afectado com este episódio de corrupção.

No campo internacional, alguns autores acreditam que o caso Watergate veio deteriorar ainda mais as relações dos Estados Unidos com a Rússia, como Henry Kissinger, já que o relacionamento entre os dois países paralisou em 1974, ano da renúncia do antigo presidente norte-americano, mas Robert D. Schulzinger ressalva que apesar das tentativas de aproximação antes dessa data, elas nunca obtiveram resultados palpáveis (AAVV, 1993, 408).

Efectivamente, o filme aborda várias questões da política externa norte-americana durante a administração Nixon, uma das mais elogiadas neste campo. Quando faleceu, alguns dos sucessores de Richard Nixon elogiaram os êxitos da sua política no Vietmane, a tentativa de acordar com a Rússia uma redução de armamento (numa época em que se temia uma guerra nuclear) e o facto de ter aberto o caminho para a aceitação da China na comunidade internacional, colocando, assim, os Estados Unidos na linha da frente da política internacional.

Numa das quatro entrevistas a David Frost, Richard Nixon disse que a guerra do Vietname, uma “herança” nas suas palavras, foi um “teste à credibilidade norte-americana”. Henry Kissinger – para quem Richard Nixon era “altamente sofisticado em questões internacionais” (Kissinger, 1996, 590) - explica que a administração do presidente envolvido no caso Watergate procurava no Vietname “uma solução que permitisse à América continuar a sua função internacional no pós-guerra, a de protector e paladino dos povos livres”. O mesmo autor reforça que o antigo Chefe de Estado norte-americano “dava importância à credibilidade e à honra, porque estas definiam a capacidade da América para moldar uma ordem internacional pacífica” (Kissinger, 1996, 588). A participação na guerra do Vietname acabou por revelar-se útil numa altura em que era “necessária uma importante reformulação da política externa americana”, escreve ainda Kissinger (1996, 613).

Além da importância de participar numa conflito dentro da Guerra Fria, onde também estava a Rússia e, neste sentido, em jogo o poder militar de cada uma das potências que “dividiam” o mundo na altura, era importante para Richard Nixon travar o comunismo, uma ideologia opositora ao capitalismo norte-americano e que o antigo Chefe de Estado encarava como uma ameaça. Segundo David Frost, Nixon disse que o Cambodja era o “quartel” de toda a operação comunista no Vietname do Sul para justificar a intervenção naquele país.

Porém, ao contrário do esperado e do facto de possuir mais recursos materiais e imateriais do que o adversário, os Estados Unidos acabaram por sair derrotados no Vietname pela guerrilha das tropas do Exército do Vietname do Norte. Neste sentido, pode então falar-se de poder estrutural, que corresponde à “autoridade para determinar as regras do jogo e determinar a forma como os outros jogarão o jogo” (Holsti, 1995, 126) e que ditou a vitória dos vietnamitas do Norte, apoiados logisticamente pela Rússia, Coreia do Norte e China, países que não se envolveram efectivamente no conflito. Ainda no âmbito da teoria dos jogos, talvez tenha faltado aos Estados Unidos um maior debruçamento sobre o “second-guessing”, isto é, uma reinterpretação ou uma reavaliação dos processos intelectuais do adversário para ganhar vantagem sobre o oponente, como é defendido por James E. Dougherty e Robert L. Pfaltzgraff (Dougherty e Pfaltzgraff, 1981, 513).

A derrota neste território não só prejudicou a intenção dos EUA de travar a expansão do comunismo, como teve um forte impacto no poderio militar do país, o que se reflectiu no chamado “Síndrome do Vietname”, traduzido numa espécie de trauma que levou os norte-americanos a mostrarem pouca abertura para a participação do país em conflitos bélicos no exterior e, consequentemente, numa mudança na política exterior da América até à eleição de Ronald Reagan, em 1980.

No filme “Frost/Nixon”, o antigo presidente norte-americano mostra-se insatisfeito por as pessoas estarem apenas preocupadas com o caso Watergate e esquecerem os feitos que conseguiu a nível internacional. Porém, na política externa, existe uma forma de poder denominada “soft power”, à luz da qual o modelo de funcionamento político interno constitui um exemplo e uma forma de persuadir os outros, como explica Victor Marques dos Santos (Santos, 2007, 282). Por outras palavras, o facto de, pela primeira vez, um país como os Estados Unidos ter um presidente pouco merecedor da confiança do povo afectou a poder do país a nível internacional, ao expor uma das suas fragilidades. Este motivo explica porque é que Richard Nixon é sobretudo recordado na história da corrupção política, como remata o filme.

A ideia de que o poder está intrinsecamente ligado ao interesse de um país, defendida por Hans J. Morgenthau (Morgenthau, 1993, 10), vai ao encontro daquilo que Nixon responde na entrevista a David Frost para justificar o seu abuso de poder na invasão da sede do Comité Nacional Democrata: “Quando um presidente faz algo, significa que isso não é ilegal”.

A questão do poder está também ligada à origem do próprio caso Watergate ou não fosse a invasão dos escritórios do principal partido da oposição uma acção levada a cabo no sentido de Richard Nixon assegurar a sua permanência no poder.

A falta de coesão nacional - um elemento importante na política externa, como anteriormente referido - também foi notória em torno do perdão concebido por Gerald R. Ford ao seu antecessor pelo envolvimento no caso Watergate, uma decisão que se traduziu numa polarização de um país já traumatizado pelo factos relativos ao escândalo. Enquanto alguns cidadãos entendiam que o antigo governante deveria ir a julgamento, outros encaravam a renúncia como suficiente e Nixon como uma vítima. Pode dizer-se que também este perdão presidencial, enquadrado num direito constitucional, constituiu um acto de poder.

A problemática do poder, que atravessa todo o filme, é também visível na relação entre o entrevistador e o antigo presidente, já que ambos procuram inverter o rumo das suas vidas com as entrevistas, num “duelo”, como inicialmente referem, em que só um podia ganhar. Nesta perspectiva é levada ao extremo a definição de Mongethau, que encara o poder como “tudo aquilo que estabelece e mantém o controlo do homem sobre o homem” (Mongethau, 1993, 11).

Nesta busca do poder, a preparação, dita estratégia, assume um papel fundamental, como é notório na parte – essencial no andamento da história – em que o antigo governante norte-americano liga a David Frost, arrasado pelo seu fraco desempenho nas entrevistas até então, para o incitar a preparar a ultima entrevista, dedicada ao escândalo Watergate. Nesta conversa, dois homens que nasceram do nada e que se tornaram personalidades importantes compartem o medo de regressar à estaca zero, numa assunção de que o poder é algo efémero e em permanente construção.

O próprio realizador, Rod Howard, disse aos jornalistas, ainda antes da estreia, que “Frost/Nixon” não é um filme sobre política, mas antes uma história humana sobre o facto de alguém que está “no fundo” e a “tentar sair dessa situação usando todas as ferramentas que se tem ao alcance”.

Deste filme pode ainda concluir-se que numa luta de poder nem sempre existe um total vencedor e um total vencido, já que se David Frost conseguiu a confissão que tanto ansiava, Richard Nixon soltou, na entrevista, o pedido de desculpas ao povo da América pelo qual a sua consciência suplicava.

Esta transversalidade das diferentes formas de poder que ressaltam do filme tornam-no numa lição universal, quer para jornalistas, políticos ou diplomatas, quer para cada indivíduo que queira entender algumas dinâmicas da sociedade em que se insere.


Bibliografia:

  • ARENAL, Celestino del (1990), Introducción a las Relaciones Internacionales, Madrid Tecnos (Citado por Victor Marques dos Santos em Teoria das Relações Internacionais - Cooperação e Conflito na Sociedade Internacional).
  • BROWNING, Silvia (2008), “Watergate had a great impact on the American Political scene”, in www.mightystudents.com (consultado em Novembro de 2010).
  • DOUGHERTY, James E., PFALTZGRAFF, Robert (1981), Contending Theories of International Relations, A Comprehensive Survey, Nova Iorque, Harper & Row. (citado por Victor Marques dos Santos em Introdução à Teoria das Relações Internacionais).
  • FIRESTONE, Bernard J. e UGRINKSY, Alexej (1993), Gerald R. Ford and the politics of post-Watergate America, Westport, Greenwood.
  • HOBERMAN, Jim (2008), “Ron Howard's Frost/Nixon explores Watergate's aftermath”, in www.citypages.com (consultado em Novembro de 2010).
  • HOLSTI, K. J. (1995), International Politics. A Framework for Analysis, Englewood Cliffs, N. J. (citado por Victor Marques dos Santos em Introdução à Teoria das Relações Internacionais).
  • MOREIRA, Adriano (1989), Relações entre as grandes potências, Lisboa, Instituto de Relações Internacionais do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.
  • MOREIRA, Adriano (2002), Teoria das Relações Internacionais, Coimbra, Almedina (citado por Victor Marques dos Santos em Introdução à Teoria das Relações Internacionais).
  • MORGENTHAU, Hans J. (1993), Politics Among Nations The Struggle for Power and Peace, Nova Iorque, McGraw-Hill (citado por Victor Marques dos Santos em Introdução à Teoria das Relações Internacionais).
  • SANTOS, Victor Marques dos (2007), Introdução à Teoria das Relações Internacionais, Lisboa, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.
  • SANTOS, Victor Marques dos (2009), Teoria das Relações Internacionais - Cooperação e Conflito na Sociedade Internacional, Lisboa, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.
1Conselheiro político e confidente de Richard Nixon e co-vencedor do Prémio Nobel da Paz em 1973 pelo seu papel na obtenção do acordo de cessar-fogo na Guerra do Vietname.
2Celestino del Arenal (Arenal,1983, 510) distingue poder potencial de poder actual, ou seja, poder real de poder efectivo, segundo Vítor Marques dos Santos (Santos, 2007,257)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Os males de Obama no Médio Oriente - Zaki Laïdi

Por Zaki Laïdi - Professor de Relações Internacionais no Instituto de Estudos Políticos de Paris

«Assim que o Presidente norte-americano, Barack Obama, saudou o regresso das tropas norte-americanas do Iraque e elogiou a estabilidade e democracia nesse país, uma onda de violência sem precedentes – em Bagdad e noutros locais – revelou a severidade da crise política iraquiana. Será essa crise uma excepção infeliz ou, antes, um sintoma do falhanço da diplomacia de Obama para o Médio Oriente, do Egipto ao Afeganistão?
Ao tomar posse, Obama definiu quatro objectivos para o Médio Oriente: estabilizar o Iraque antes de o deixar; retirar do Afeganistão numa posição de força e baseado numa convergência política mínima com o Paquistão; conseguir um avanço importante no processo de paz do Médio Oriente, obrigando o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu a parar com a criação de colonatos; e encetar um diálogo com o Irão sobre o futuro do seu programa nuclear. Relativamente a estes quatro temas principais, Obama claramente conseguiu muito pouco.
Relativamente ao Iraque, desde a presidência de George W. Bush, os Estados Unidos têm tentado exercer uma influência moderadora no poder xiita, para que o país possa criar um sistema político mais inclusivo – especificamente, fazendo aprovar uma nova lei sobre a partilha dos lucros da exportação do petróleo entre as comunidades xiitas, sunitas e curdas. Infelizmente, foi precisamente o oposto que aconteceu.
O Curdistão embarcou num caminho em direcção a uma maior autonomia, enquanto os sunitas são cada vez mais marginalizados por um governo central sectário e autoritário, dominado pelos xiitas. Daqui decorrem implicações para o equilíbrio regional de poderes, porque o Iraque está a aproximar-se do Irão de modo a contrabalançar a Turquia, que é vista como protegendo os sunitas.
O reparo feito pelo primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, durante uma recente viagem a Washington de que estaria mais preocupado com a Turquia que com o Irão expôs o grande fosso entre o Iraque e os EUA, que parecem agora ter perdido toda a influência política significativa nos assuntos iraquianos. Na verdade, num desenvolvimento perturbador, os EUA decidiram não jogar a carta que lhes restava nas negociações com al-Maliki: a venda de armas.
Não pode haver mais dúvidas de que a ocupação do Iraque foi uma enorme derrota estratégica para os EUA, porque em última análise serviu apenas para fortalecer o Irão. Ainda assim, a Obama falta uma visão de médio prazo para lidar com a seriedade da situação – um lapso que, mais cedo ou mais tarde, custará caro aos EUA.
Uma de duas coisas acontecerá: ou uma maior contenção do Irão através de sanções à exportação de petróleo produzirá resultados positivos e enfraquecerá o Irão, ou a contenção falhará, levando inexoravelmente os EUA para uma nova guerra no Médio Oriente. Não é improvável que alguns membros dos círculos da política externa dos EUA encarem a intensificada crise iraquiana como um argumento para justificar uma intervenção militar no Irão.
Mas Obama não se deixa enganar. Já registou a hostilidade do Congresso dos EUA relativamente ao Irão e o desejo de confrontar militarmente a República Islâmica. Acredita, no entanto, que poderá evitar soluções extremas; em diplomacia, tudo pode acontecer, e o pior cenário nunca está garantido.
O problema é que Obama tem uma forte tendência para sobrestimar a capacidade americana para influenciar actores mais fracos. O que é verdade para o Iraque é também verdade para o Afeganistão: Obama pode orgulhar-se da eliminação de Osama bin Laden, que foi indubitavelmente um sucesso, mas um sucesso que não conseguiu resolver a raiz do problema. Apesar de uma presença militar de 10 anos, que envolveu o destacamento de mais de 100 mil efectivos militares a um custo de 550 mil milhões de dólares, os EUA ainda não conseguiram criar uma alternativa credível aos taliban. Pior, a sua aliança política com o Paquistão desgastou-se.
Na verdade, as relações EUA-Paquistão regrediram a um nível anterior ao 11 de Setembro de 2001, uma época marcada por profunda desconfiança mútua. Os líderes paquistaneses têm obviamente uma pesada responsabilidade neste estado de coisas. Mas se os EUA têm sido incapazes de envolver o Paquistão na resolução do conflito do Afeganistão, esse falhanço apenas reflecte a recusa da América em dar aos paquistaneses o que estes queriam: uma mudança no equilíbrio regional do poder à custa da Índia. O Paquistão, consequentemente, congelou a cooperação com os EUA, porque os seus líderes já não viam muitas vantagens em lutar contra os taliban. O risco é que quando começar a retirada americana do Afeganistão – um processo que acabou de ser adiado um ano, começando a partir de 2014 – os EUA tentarão novamente impor sanções ao Paquistão, um estado nuclear pouco fiável que reagirá fortalecendo laços com a China e apoiando o terrorismo islâmico.
Obama também tentou usar a influência americana para resolver o conflito israelo-palestiniano como parte da sua estratégia para o Grande Médio Oriente. Pensou inicialmente que, pressionando Netanyahu a parar com a criação de colonatos, conseguiria reavivar o processo de paz. Mas foi rápida e capazmente ultrapassado pelo seu aliado, que sabe como é importante a questão israelita para a política interna dos EUA. Colocando Obama contra o resto do sistema dos EUA, Netanyahu forçou-o a retirar.
Em 2009, Obama perspectivou uma resolução do conflito através do forte comprometimento da comunidade internacional. Em 2011, afirmou que apenas a vontade de ambas as partes poderia assegurar um bom desfecho. Claramente, os EUA não podem fazer muito para resolver o conflito.
Não há uma explicação abrangente para os falhanços sucessivos de Obama no Médio Oriente, mas existem alguns factores que vale a pena considerar: o aumento no número de conflitos assimétricos, onde o uso tradicional da força é largamente ineficaz; linhas cada vez mais esbatidas entre aliados difíceis e adversários intransigentes; e diferenças políticas importantes entre um presidente dos EUA centrista e um Congresso que é dominado mais do que nunca por ideias extremas.
Mas o próprio Obama tem grande parte da culpa. Contrariamente ao que se possa pensar, não tem uma verdadeira visão estratégica do mundo – uma insuficiência reflectida na sua rápida capitulação em face da oposição às suas propostas. Obama tem muitas vezes um plano A, mas nunca um plano B. Quando se trata de conduzir uma política externa bem-sucedida, um plano A nunca é suficiente».

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Diferenças entre Diplomacia e Serviços de Informações Estratégicas

     Já na década de 60 do século passado, ainda muito antes de se falar em globalização, Robert Rossow advertia que quando pessoas de diferentes origens culturais entram em “contacto frequente e significativo, a possibilidade de incompreensão e de conflito é óbvia” (Rossow, 1962, p. 563). É precisamente para contornar essa realidade que a Diplomacia é essencial, sobretudo numa época em que cada vez mais as fronteiras se esbatem e povos longínquos, com diferentes culturas e formas de pensar, se aproximam. A palavra é o maior instrumento do diplomata e ninguém, no âmbito da Política Externa, a saberá - pelo menos idealmente - usar melhor do que ele.
    Como a História vem provando, os Serviços de Informações Estratégicas têm ditado o posicionamento entre o sucesso e o fracasso, entre a segurança e a insegurança, entre a estabilidade e a incerteza.
    Antes de fazer qualquer comparação, é preciso ter em conta a natureza de cada actividade, em concreto o facto de as embaixadas representarem o Governo e auxiliarem os cidadãos. Por exemplo, para analisarem uma situação e saberem dar respostas, os diplomatas devem ter conhecimento de todas as políticas tomadas nos países que representam, o que exige muito tempo e apoio, como salienta Harry R. Rudin (Rudin, 1956, p. 162).
    Por outro lado, a Intelligence vive apenas das informações e destaca-se por ter meios únicos para as conseguir, não só tecnológicos, mas também humanos, como fontes cobertas, que podem ser locais, ou seja, pessoas que fazem parte do grupo onde está o problema. Christopher Andrew destaca que “a maior conquista da nova tecnologia em Intelligence foi tornar possível o controle da corrida ao armamento”, algo em que a “diplomacia falhou” (Andrew, 1977, p. 392). A Intelligence é sempre importante para a tomada de decisões, mas o seu aspecto mais importante é ajudar um país a “evitar ser surpreendido”, ressalva Derek Croxton, frisando que uma falha desse nível “quase sempre resulta em derrota” (Croxton, 2000, p. 986).
    Desde logo, tanto a Diplomacia como os Serviços de Informações estão preocupados com o Interesse Nacional,  uma definição onde cabem imensos objectivos, uns mais facilmente alcançáveis através da actividade diplomática e outros só conseguidos com informações obtidas por agentes encobertos. Há informações que só podem ser obtidas pelos diplomatas, como em cerimónias oficiais, encontros culturais, científicos, militares, entre outros, reuniões sociais, no contacto com personalidades destacadas e organismos do Estado, na relação com outras embaixadas e consulados locais e ainda em “viagens de informação, planeadas de modo a cobrir todas as áreas críticas, nos países em que tal for permitido” (Cardoso, 2004, p. 240).
    Perante situações de crise, as diplomacias também realizam análises imediatas e prospectivas, tal como os Serviços de Informações, ainda que acabem por ser mais subjectivas e abordem sobretudo a política e a opinião pública.
    Importa ainda referir que há muitas actividades que auxiliam a diplomacia e o fornecimento de informações no estrangeiro, como jornalistas, empresários ou associações de cidadãos.
    Pedro Cardoso aponta que a complementariedade entre Diplomacia e Serviços de Informações Estratégicos é incontornável sobretudo quando os dados obtidos pelo “trabalho diplomático normal” precisam de ser confirmados através de uma “pesquisa encoberta” (Cardoso, 2004, p. 209), até porque a Intelligence trabalha com métodos que visam tornar a informação obtida o mais fiel à realidade possível, evitando qualquer ponta de subjectividade, algo que é permitido aos diplomatas. A este propósito, Roger Hilsman alerta que se os funcionários de Intelligence “sintonizarem as suas mentes em questões políticas, eles não podem ser objectivos” (Hilsman, 1952, p. 8).
    Pedro Borges Graça salienta que desde os ataques de 11 de Setembro, “os Serviços de Informações têm vindo, gradualmente, a ganhar proeminência em relação” à diplomacia, dando o exemplo do Reino Unido que agora gasta bastante mais em Intelligence do que em actividades diplomáticas (Graça, 2011, p. 23).  Isto pode criar algum distanciamento entre os dois serviços, com os diplomatas a frisarem que fazem tudo às claras e a acusarem os agentes de Intelligence de usarem métodos menos ortodoxos e os funcionários dos Serviços de Informações a dizerem que as suas análises são mais fiáveis.
    Pedro Cardoso chama a atenção precisamente para o perigo do crescimento do  distanciamento entre os dois serviços, o que leva, por vezes, os analistas de Intelligence a desprezar as análises elaboradas por diplomatas (Cardoso, 2004, p. 210).
    Outro motivo de distanciamento tem a ver com a intercepção de mensagens diplomáticas, algo estritamente proibido em várias convenções internacionais, mas realizado em Intelligence, como por exemplo pela norte-americana Agência de Segurança Nacional (NSA) (Andrew, 1977, p. 401).
    Apesar dos distanciamentos, é evidente que as duas actividades devem andar de mãos dadas, quando o que se quer são vantagens competitivas do Estado nas Relações Internacionais.

Referências bibliográficas:


ANDREW, Christopher (1977), “Whitehall, Washington and the Intelligence Services”, International Affairs (Royal Institute of International Affairs 1944-), Vol. 53, No. 3 (Jul., 1977), pp. 390-404.
CARDOSO, Pedro (2004), As informações em Portugal, Lisboa, Gradiva.
CROXTON, Derek (2000), "The Prosperity of Arms Is Never Continual": Military Intelligence, Surprise, and Diplomacy in 1640s Germany”, in The Journal of Military History, Vol. 64, No. 4 (Oct., 2000), pp. 981-1003.
GRAÇA, Pedro Borges (Coord.) (2011), Estudos de Intelligence, Lisboa, ISCSP.
HILSMAN, Roger (1952), “Intelligence and Policy-Making in Foreign Affairs”, in World Politics, Vol. 5, No. 1 (Oct., 1952), pp. 1-45.
ROSSOW, Robert (1962), “The Professionalization of the New Diplomacy”, in World Politics, Vol. 14, No. 4 (Jul., 1962), p. 561-575.
RUDIN, Harry R. (1956), “Diplomacy, Democracy, Security: Two Centuries in Contrast”, in Political Science Quarterly, Vol. 71, No. 2 (Jun., 1956), pp. 161-181.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Mente aberta, o segredo da Intelligence

    O simples facto de esta recensão começar com um título e tentar seguir o estabelecido na academia torna-a aceitável entre os pares, mas não inovadora. É esta a ideia que Richards Heuer pretende passar no capítulo “Open your mind”, do livro “Psychology of Intelligenc Analisys”, que começa da seguinte forma: “Mentes são como pára-quedas: só funcionam quando estão abertas” (Heuer, 1999, p. 65). O livro – que reúne artigos escritos entre 1978 e 1986, embora com  aplicabilidade em diferentes épocas e actividades - oferece técnicas para desconstruir processos no sentido de 'fintar' e de tentar prever os passos do outro, numa altura em que a Intelligence ganha espaço na cena internacional (em detrimento da diplomacia, mais política e menos objectiva), devido em boa parte a novas ameaças, como o terrorismo. Com efeito, depois da Guerra Fria, altura em que os métodos de comando e controlo eram “previsíveis” (Lange, p. 126), “as ameaças que agora pairam sobre os Estados são mais dissimuladas e, consequentemente, mais imprevisíveis” e os desafios à Intelligence “crescem exponencialmente em variedade, volume e velocidade” (Lange, p. 127).
   Em tom desafiante mas de braço dado com o leitor, este veterano da CIA – várias vezes galardoado pela inovação metodológica que trouxe à Intelligence – alerta para processos mentais inconscientes e muitas vezes colectivos, conferindo-lhes tanta ou mais importância do que às informações per si. Apesar de o passado ser imprescindível para olhar o futuro, tal deve ser feito através de técnicas que promovam o distanciamento e a objectividade, colocando-se o ser humano na posição de 'tábua rasa' e o analista dentro de si no papel de um cientista mais empenhado em fazer combinações novas do que em provar que as conhecidas se aplicam a outros casos. Para defender a importância da temática vale a pena recordar Robert C. North, que adverte que a percepção inicial de uma ameaça “pode não ser precisa ou justificada”. “Muitos conflitos emergem a partir do que as partes pensam que está a acontecer – das suas ansiedades, preconceitos, medos e incertezas – e não de qualquer fenómeno que seja, de facto ameaçador”, acrescenta (citado em Santos, 2009, p. 176). Na verdade, o medo leva muitas vezes a pensar o pior quando o desconhecimento é grande. Exemplo disso foi o que se passou quando Portugal, numa altura em os Serviços de Informações lusos ainda era muito limitados, comprou mísseis aéreos para enfrentar a Guiné, sendo que “o adversário não tinha meios aéreos nem condições de os vir a ter”, recorda Pedro Serradas Duarte (Graça, 2011, p. 50).
    Em todo o capítulo “Open your mind” está latente a ideia de que o analista deve sair da zona de conforto e das respostas comuns para fazer a diferença, ainda que o autor reconheça que é preciso coragem para tal. Importa recordar Galileu Galilei, um entre tantos que mudaram o mundo com as suas ideias e que acabaram condenados por isso. Questionar os nossos pressupostos, arranjando alternativas e assumindo o lugar do outro, dar mais importância a pequenas surpresas do que a ideias feitas, multiplicar interpretações do mesmo facto e conjugá-las de diferente forma, separar ideias soltas da apreciação das mesmas contornando a auto-censura, discutir o assunto com pessoas fora da análise são apenas algumas das técnicas sugeridas pelo autor, que insiste na necessidade de usar a criatividade e a imaginação para alcançar a inovação. Destaque para a eficácia da técnica de vestir a pele do outro, mas também para o perigo da mesma, sobretudo quando o estudo da realidade do outro e a capacidade de ter a mente aberta não são as melhores. Ter uma real noção do comportamento do outro e, simultaneamente, despir a roupagem que nos foi definindo é essencial para, por exemplo, entender que as autoridades de um Estado ao tomarem uma certa atitude na cena internacional podem não procurar o expansionismo ou alargar o seu poder funcional, mas simplesmente obter ganhos eleitorais ou desviar as atenções. Isso aconteceu em algumas vezes que Hugo Chávez assumiu o papel de mediador na questão das FARC na Colômbia. Para exemplificar a importância de alargar o espectro de técnicas e ideias em Intelligence basta diferenciar uma pessoa que nunca saiu do seu país e que encara comportamentos culturais como naturais de outra que viajou pelo mundo e que consegue não só perceber o que lhe foi inculcado pela sociedade, como também analisar objectivamente as diferenças. Contudo, nas técnicas que sugere, Richards Heuer aponta o ambiente organizacional como a chave principal. Citando dados empíricos, o autor defende que a criatividade inata é pouco relevante se o ambiente for avesso à mudança, ainda que esteja ciente de que por vezes novas técnicas, como o “advogado do diabo”, são evitadas nas organizações, porque podem trazer à luz problemas internos, como brechas na defesa, e até derrubar a estrutura organizacional vigente. Csikszentmihalyi (citado em Alencar e Martínez, 1998) alerta que “estudar a criatividade focalizando apenas o indivíduo é como tentar compreender como uma macieira produz frutos, olhando apenas a árvore e ignorando o sol e o solo que possibilitam a vida”.
    Faltou ao autor, talvez, dar maior relevo à ansiedade - ou melhor, a técnicas para contornar essa ansiedade - gerada pela necessidade de conseguir respostas e de envolver-se numa certa competitividade, que pode levar os analistas a seguir por atalhos conhecidos em vez de arriscar um caminho novo. Imagine-se um grupo de analistas debruçados sobre um mesmo assunto: tender-se-á, devido à natureza humana e, em boa parte, a práticas enraizadas em Serviços de Informações pouco apostados no incentivo à mudança, a assistir-se a um atropelar de ideias já usadas (das mais para as menos conhecidas) à medida que o silêncio vai ensurdecendo. Muitas vezes é nesse silêncio, que devia ser preenchido com outras actividades para estimular a criatividade sob pena de a pressão toldar a visão, que se joga o sucesso de uma resposta na cena internacional. É essencial, como Richards Heuer defende, um ambiente que recompense o pensamento crítico. O autor sugere mesmo que os Serviços de Informações invistam em novas ferramentas para avaliar as informações.

Referências bibliográficas:

- ALENCAR, E. M. L. S. e MARTÍNEZ, A. M. (1998), “Barreiras à expressão da criatividade entre profissionais brasileiros, cubanos e portugueses”, in www.scielo.br/pdf/pee/v2n1/v2n1a03.pdf
- GRAÇA, Pedro Borges (Coord.) (2011), Estudos de Intelligence, Lisboa, ISCSP.
- HEUER, Richards (1999), Psichology of Intelligence Analysis, Center of the Study of Intelligence.
- LANGE, Wellington da Costa (2007), “A actividade de Inteligência e a sua actuação no âmbito das Relações Internacionais”, in http://www.publicacoesacademicas.uniceub.br/index.php/relacoesinternacionais/article/view/314/508
- SANTOS, Victor Marques dos (2009), Teoria das Relações Internacionais - Cooperação e Conflito na Sociedade Internacional, Lisboa, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.