quarta-feira, 14 de março de 2012

A mediatização de um homem, Kony

A campanha “Kony 2012” nos últimos dias tornou-se um fenómeno planetário. Todos aqueles que viram o vídeo da campanha certamente ficaram revoltados por Kony, "senhor da guerra", encontrar-se ainda em liberdade. Em 30 minutos a ONG, Invisible Children, expõem as atrocidades que Kony realizou no Uganda. Apelando ao sentimentalismo de cada um propõem uma missão, capturar Joseph Kony até ao final de 2012.
Apesar do imenso sucesso, logo surgiram variadas críticas relativamente às informações fornecidas no vídeo da campanha como também à acção da Invisible Children. Para além da campanha encontrar-se com cerca de 10 anos de atraso, uma vez que Kony deixou de ser prioridade, a ONG apela também à cooperação norte-americana com o Exército do Uganda continue, quando este é acusado de cometer abusos dos direitos humanos.



Assim penso que é fundamental expor sumariamente os últimos acontecimentos vividos naquele território.
Kony nasce em 1963 no norte do Uganda, no seio de uma família rural. Um ano antes, a 9 de Outubro de 1962 o Uganda havia tornado independente. Os primeiros anos da independência são marcados por várias lutas políticas, várias visões de Estado, golpes de Estado, ditadura, luta armada e assassinato de civis.
Entre 1981 e 1986 o Uganda deparou-se com uma guerra civil que opôs o governo de Milton Obote à guerrilha denominada National Resistance Army, liderado por Yoweri Museveni, visto que violações dos direitos humanos sucediam por parte das forças de segurança. Numa tentativa de parar com a rebelião uma parte do país foi destruída.
A 27 de Julho de 1985, a capital do Uganda, Kampala, é tomada por Tito Okello e é proclamado um governo militar. Milton Obote ruma ao exílio na Zâmbia, e o General Tito Okello inicia negociações com Museveni, com fim de cessar os conflitos entre tribos e organizar eleições livres e justas. Ainda assim o abuso dos direitos humanos continuava nomeadamente contra os membros do NRA e seus apoiantes.
Em Janeiro de 1986, o NRA toma Kampala, obrigando Okello e as suas forças a refugiarem-se no Sudão.
Tal acção levaria a uma revolta por parte da etnia Acholi contra Museveni. Na altura Alice Auma liderou um grupo de rebeldes em ataque contra Museveni, mas sairia totalmente fracassada, e Auma iria refugiar-se no Quénia, decorria o ano 1987. Com a ausência de Lakwena, Kony assume o que resta do grupo Holy Spirit Movement, que seria a semente para o que mais tarde se tornaria Lord´s Resistance Army (LRA). Joseph Kony tornar-se-ia figura relevante no confronto regional no norte do Uganda. Pretendia derrubar o governo de Museveni e implementar um governo baseado nos 10 Mandamentos da Bíblia. Impera referir que Kony se proclamava um profeta.
A organização que liderava seria apoiado por pessoas do norte do Uganda, mas com o passar do tempo diminuiriam os recursos, que resultaria na vitimização da etnia Acholi.
Nos anos seguintes, Kony e a sua organização LRA, cometeriam atrocidades à população ugandesa. Para além de saquear aldeias, matou milhares de pessoas, abusou e mutilou civis, raptou milhares de crianças.
As acções do LRA, na década de 90 permitiram desestabilizar as regiões vizinhas, nomeadamente o sul do Sudão, a República Democrática do Congo e a República Centro-Africana. Tal deveu-se em grande medida à elevada quantidade de membros que detinha o LRA, cerca de 10 mil.
Decorria o ano de 1994 e ao LRA conseguia o apoio do Sudão. O governo sudanês pretendia utilizar a organização na sua luta contra o governo do Uganda, uma vez que aquele tinha apoiado os rebeldes no Sudão.
É apenas em 2005, que o Tribunal Penal Internacional emite um mandado de prisão para Joseph Kony. Acusado de crimes contra os direitos humanos, alegou sempre inocência e no final do mesmo ano acabaria por fugir do Uganda. Um ano depois, 2006, Kony reaparece em Maio, para negociar a paz com o governo do Uganda e um cessar-fogo é declarado em Agosto. Dois anos depois, o acordo havia surgido entre ambos os intervenientes, mas aquando da assinatura do acordo de paz, Kony encontrava-se em parte incerta.

Actualmente o Uganda não se encontra em guerra, mas existe muito a construir num país que sofreu conflitos internos desde a sua independência. Joseph Kony deixou de se tornar prioridade para o governo ugandês, uma vez que já não se encontra no território.
A prioridade é reconstruir e melhorar a vida da população, especialmente das crianças, nos vários âmbitos, seja educação, saúde, saneamento básico, ou seja naquilo que é essencial a uma vida digna.
Ainda assim, penso que é fundamental que indivíduos como Joseph Kony sejam julgados pelas atrocidades que cometeram. É importante não esquecer as vítimas e capturar indivíduos como Kony, pode não ser prioridade mas tem que existir. Mais cedo ou mais tarde têm que responder perante a lei, ora vejamos como exemplo o recente julgamento de outro “senhor da guerra”, Lubanga.

sábado, 10 de março de 2012

ODM 3 - “igualdade de género – promover a igualdade de género e empoderar as mulheres”





“You can tell the condition of a nation by looking at the status of its women”
Jawaharal Nehru


Recentemente festejou-se mais um “Dia da Mulher”. Os anos passam e a simbologia daquele dia, parece perder-se no quotidiano de muitos outros. Aquele que deveria ser lembrado como a luta de tantas e tantas mulheres ao longo dos séculos por igualdade entre os sexos tornou-se numa sombra, num banal “dia comercial”.
Ainda há muito a fazer. A igualdade de género não existe! É certo que no “mundo ocidental” a vida para as mulheres está mais facilitada, mas no restante mundo a história diverge. Ser mulher em determinadas partes do globo é estar condenada.
Decorria o ano 2000, e em Setembro vários líderes, chefes de Estado e de Governo de 189 países, reuniram-se nas Nações Unidos com fim de assinar a “Declaração do Milénio”. Estabeleceram 8 Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, os ODM, a alcançar até 2015. O compromisso assumido pressupunha o investimento de 0,7% do Rendimento Nacional Bruto de cada país em ajuda pública ao desenvolvimento, até 2015.
Todos os objectivos são de extrema importância, mas saliento o terceiro ODM, “igualdade de género – promover a igualdade de género e empoderar as mulheres”. O estabelecimento de um ODM dedicado apenas às mulheres evidencia a consciencialização por parte de variadas entidades de que não estamos perante um mundo com efectiva igualdade de género, e que existe imenso trabalho a realizar, para no mínimo diminuir as disparidades. Aliás a desigualdade de género encontra-se enraizada em diversas culturas.
Os dados que evidenciam essa disparidade são tremendos. De acordo com a informação da “Campanha Objectivo 2015”, cerca de 3/5 do 1.2 mil milhões de população pobre são mulheres, 2/3 dos 960 milhões de adultos do mundo que não sabem ler são mulheres, 70% das 130 milhões de crianças que não vão à escola são do sexo feminino, 60% das mulheres do mundo efectuam trabalho não remunerado ou mal pago, e representam a maioria entre os 1.2 mil milhões de pessoas que vivem com menos de 1.25 dólar por dia. Ainda referem que em 2008, dos 150 Chefes de Estado, apenas 7 eram mulheres, e dos 192 chefes de governos dos Estados-membros das Nações Unidas apenas 8 eram mulheres. Apenas 16% dos cargos ministeriais de todo o mundo são atribuídos a mulheres, e existem 13 países onde não têm qualquer representação feminina em posições governamentais.
Se juntarmos a este cenário o difícil acesso a água potável, estamos perante um panorama caótico. Como sabemos, o acesso a esse recurso natural encontra-se desproporcionalmente situado pelo globo, daí que nos deparemos com o surgimento de tensões ou conflitos por causa desse bem essencial ao Homem.
O sucesso do ODM, igualdade de género – promover a igualdade de género e empoderar as mulheres”, depende em grande medida do sucesso dos restantes objectivos. Se o ambiente envolvente detiver sustentabilidade e auto-suficiência, infra-estruturas, cuidados básicos de saúde estaremos no caminho certo para um futuro mais digno de todas as mulheres, mas para tal, como para tudo, vontade política é o essencial.
Às mulheres que tiveram a sorte de nascer deste lado do globo, a luta daquelas que vivem do outro lado também é nossa. Somos responsáveis por cada uma delas! Porque a desigualdade entre género é um mal dos dois mundos, do nosso e do delas, mas sejamos realistas, ao menos no nosso conseguimos viver, elas tentam sobreviver.
Que o dia 8 de Março encontre a essência da sua existência!

sexta-feira, 9 de março de 2012

"Syria: The Assads"

Bashar al-Assad optou pelo massacre dos seus civis com fim de perpetuar no poder. Desde 2011 que o Estado sírio está sob “fogo”. No seguimento da tão proclamada “Primavera Árabe”, manifestações surgiram contra o governo autoritário do herdeiro de Hafiz al-Assad.
A hereditariedade no poder seria o meio utilizado para governar, algo usual na região. Em 1994 a família Al-Assad, era abalada pela morte de Bassel, primeiro filho de Hafiz que estava destinado a seguir as pisadas do pai. Bashar vê o seu futuro tomar outro rumo. Em 2000 torna-se Presidente da Síria, na sequência do falecimento de seu pai.
Na altura era expectável um aproximar e uma abertura da Síria ao Ocidente, como também reformas democráticas, mas Bashar deu continuidade à política do seu antecessor.
Recorde-se que Hafiz, em 1982, com intuito de cessar uma rebelião motivada pela Irmandade Muçulmana, bombardeou a cidade de Hama durante vários dias. Estimam-se que 20 mil pessoas morreram. Bashar parece querer seguir as pisadas do pai, no que se refere à forma como lida com as manifestações. Relembro que desde o início dos protestos, em Janeiro de 2011, já morreram mais de 7500 pessoas segundo dados da ONU, ainda assim a oposição a Bashar calcula que o número de vítimas ultrapasse os 8500, grande parte na cidade de Homs. Outros são ainda vítimas de torturas.
Bashar já deu razões suficientes à comunidade internacional de que não é capaz de proteger nem assegurar a segurança dos seus cidadãos. Logo quando o Estado não é capaz de asseverar o princípio da responsabilidade de proteger, cabe então à comunidade internacional agir.
No caso da Líbia, como podemos comprovar verificou-se uma certa inércia por parte da comunidade internacional. Inicialmente os vários apelos ao fim da violência e a imposição de sanções pareciam o rumo ideal, para travar Kadhafi. Claro está que o cenário de violência não cessou, aliás escalou de tal maneira desencadeando uma guerra civil. Só passado cerca de um mês é que a comunidade internacional intervinha.
Porquê relembrar o caso da Líbia? De certa maneira assemelha-se com a situação na Síria. Bashar recusa abandonar o poder. Gustave Le Bon em As Opiniões e as Crenças, referia que «os homens dominados por uma certeza não podem tolerar aqueles que não a aceitam», Bashar sem dúvida é um destes homens.
As sanções persistem uma vez que não há outra alternativa, visto que, quer a Rússia quer a China vetaram no Conselho de Segurança da ONU, a proposta de intervenção estrangeira no território.
A inércia da comunidade internacional tem que cessar. Sei que são os interesses a ditar as regras do jogo e não a ética, mas a inércia só contribuiu para que para fortalecer essas atrocidades e propagá-las. Ao expandir contribui para o surgimento de centros de tensão e desequilíbrio, logo instabilidade.
E instabilidade e insegurança atormentam aos Homens.


Aos interessados recomendo o visionamento do documentário "Syria: The Assads"

quinta-feira, 8 de março de 2012

Kony 2012



Joseph Kony, líder do Exército de Resistência do Senhor (LRA)em 2005 foi acusado pelo TPI, por rapto de milhares de crianças, transformando-os em soldados os rapazes e em escravas sexuais as raparigas. Outros terá executado ou mutilado. Kony e a sua organização é ainda responsável pelas mortes de dezenas de milhares de pessoas no Uganda, República Democrática do Congo, no Sudão do Sul e na República Centro Africana. No pós 11 de Setembro, os Estados Unidos da América classificariam o LRA como organização terrorista.

O vídeo "Kony 2012" realizado pela organização não governamental Invisible Children, pretende que Kony seja capturado e condenado por crimes contra a humanidade. Para tal a organização pretende dar a conhecer Kony ao mundo apelando cooperação dos governantes para a causa que defendem, capturar Kony e acabar com as suas atrocidades no Uganda.

Partilhem pelo maior número de pessoas!
É um dever cívico de cada Homem, pelo bem estar de cada um e por um futuro mais solidário onde não exista espaço para tantas disparidades.

"Mundos em colisão"

    O livro “Mundo em Colisão”, de Ken Booth e Time Dunne, começa por abordar a guerra contra o terrorismo, em concreto as suas causas e as suas consequências, e a necessidade de criar alternativas à mesma que passem pela construção de um novo mundo onde impere o “poder da comunidade” e o combate de outros fenómenos, muitos deles mais problemáticos do que o terrorismo, como a pobreza.

    Os autores apontam o 11 de Setembro como uma data que marca uma crise mundial histórica pela colisão de mundos que representa – o Ocidental, personificado pelos EUA, e o mundo muçulmano (ainda que esta colisão tenha paralelismos com outras, como o conflito israelo-palestiniano) -, e defendem a necessidade de introspecção dos dois lados.

    É necessário pôr de lado os mitos criados em torno da sociedade norte-americana – que surgiram com o propósito de a unificar, tornando-a atraente – e avaliar a postura que o país tem tido como maior potência do mundo, à luz da ideia de que quanto maior o poder maior a responsabilidade. Com efeito, os Estados Unidos podem, por exemplo, ser acusados de fundamentalismo de mercado num mundo virtual. Isto leva Jung Mo Sung diz que são precisos novos valores morais, já que as formas de “definir o bem e o mal, o certo e o errado já não estão a funcionar para os desafios do nosso tempo” (Sung, 2006).

     A introspecção do lado do mundo muçulmano deverá, assim, passar também por um olhar sobre o fundamentalismo, que, ressalve-se, existe em várias religiões, mas está sobretudo ligado ao Islamismo. Tal como os fundamentalistas de mercado, os terroristas islâmicos também se arriscam a “parasitar” as causas que defendem (Innerarity, 2004, p. 61).

     Samuel P. Huntington defendeu que o choque de civilizações iria dominar a política internacional após o fim da Guerra Fria. Huntington disse que “os alinhamentos culturais são a chave da nova ordem mundial” (Bertonha, p. 177), pelo que grandes blocos económicos e políticos que reunam culturas diversas produzirão “inevitavelmente resultados modestos” (Bertonha, p. 178).

     Com efeito, basta olhar para a relutância que os europeus ocidentais têm em incluir uma Turquia islâmica na União Europeia para dar razão a Huntington.

     Por outro lado, depois de terem perdido o domínio do mundo e assistido à queda do Império Otomano, os muçulmanos encaram o Ocidente como inimigo, sendo que num mundo globalizado, em que a Internet chega a todo o lado e os produtos culturais norte-americanos se disseminam pelos quatro cantos do globo, cresce o receio do fim da cultura muçulmana.

    João Marques de Almeida entende que se existem causas que explicam o aparecimento da Al-Qaeda, “elas resultam em larga medida de erros políticos das potências ocidentais no Médio Oriente”, como o apoio a Israel na violação da independência política dos palestinianos, e de “graves problemas económicos e políticos que afectam as sociedades muçulmanas”.

Ataque ao World Trade Center. a 11/9.  Créditos: http://iraqwarnews.net

    A agravar a situação, cada vez mais os políticos ocidentais tomam medidas de segurança no sentido de criar um sentimento anti-ocidental. Por isso, um relatório da Open Society Institute, apresentado em Dezembro de 2009, deu conta que a discriminação contra muçulmanos está a aumentar na Europa. Questionado sobre se é possível comparar a situação actual com o que se passou com os judeus nos anos 30, Martin Rose, director do projecto A Nossa Europa Comum, citado pelo Público, afirmou que por um lado até “é pior do que nos anos 30, porque se passa em toda a Europa". "Se combinamos crise com ignorância, e com o facto de que há gente que se diz muçulmana a fazer-se explodir, os muçulmanos são um alvo óptimo, quando estamos à procura de alguém para odiar”, acrescentou. Com efeito, nos últimos anos tem-se verificado que à medida que se ouvem discursos anti-muçulmanos crescem no poder partidos de extrema-direita.

    Num mundo onde os terroristas semeiam o medo e, logo, a confusão, e os políticos são obrigados a fazer algo rápido e visível para combater o inimigo – como, aliás, actuou a Casa Branca ao invadir o Afeganistão - os executivos agem, não raras vezes, sem premeditar. Este facto leva Daniel Innerarity a concluir que “as pessoas têm o direito de estar a salvo também dos seus protectores” (2004, p. 172).
Esta realidade leva muitos jovens muçulmanos discriminados na Europa a procurar uma “identidade alternativa e auto-estima numa suposta vanguarda islâmica global e no cumprimento de um dever honroso”, perpetrando ataques suicidas (Costa, p. 41).

    Apesar de os autores de “Mundos em Colisão” preferirem falar em incompreensão mútua do que em choque de civilizações, a verdade é que este é um dos maiores problemas da actualidade. Quando um francesa muçulmana tenta banhar-se numa piscina com uma “burquíni”1, porque assim o exige a sua religião, e é impedida por questões de higiene existe um choque de culturas.

    A ideia de que muçulmanos e ocidentais devem colocar-se no lugar do outro, como defendem Ken Booth e Time Dunne, faz todo o sentido, sobretudo, quando alguns executivos falam em combater o terrorismo e usam-no dentro das próprias fronteiras, dado que, por exemplo, a tortura é uma forma de terror.

    Os autores chamam ainda a atenção para a perda de vidas humanas quando se luta contra terroristas. “Quando nos convencemos que a guerra é a única forma de prevalecer (como os jihadistas fizeram), tornamo-nos hipócritas em relação à nossa causa (tal como os islamistas) e arriscamo-nos a apagar a distinção entre guerreiros e não combatentes”, alertam (p. 13).

    “Se o primeiro passo é desafiar a noção de um mundo bifurcado, a segunda é aceitar” que existem outros terrores, como a pobreza (p. 8), defendem os autores de Mundos em Colisão. Se a pobreza aumenta também cresce a facilidade de acesso a armas de destruição maciça.

    Por tudo isto, os autores entendem que, ao contrário dos políticos, os líderes pensam que os problemas de hoje não são os verdadeiros problemas, mas apenas os sintomas.

    A par do terrorismo, Booth e Dunne lembram o fanatismo religioso dos talibãs, o hipernacionalismo nos Balcãs e o anti-semitismo na Europa do Leste, para defenderem a necessidade de ponderar as causas destes problemas actuais, num mundo em que as pessoas precisam de algo em que acreditar.

    Numa altura em que a Al-Qaeda está em pelo menos 40 países e potenciais terroristas nascem todos os dias, é preciso repensar o significado de vitória e apostar na construção de um mundo de comunidade, em que a globalização humanitária seja uma prioridade, advogam os autores de “Mundos em Colisão”.  

Referências bibliográficas:

- ALMEIDA, João Marques de, “O Choque das Civilizações e o 11 de Setembro”, in
http://www.ipri.pt/investigadores/artigo.php?idi=5&ida=31 (Consultado em Janeiro de 2011).
- BOOTH, Ken e DUNNE, Tim (2002), Mundos em colisão: terror e o futuro da ordem global, Nova Iorque, Palgrave Macmillan.
- BERTONHA, João Fábio, “O choque das civilizações e a composição da ordem Mundial” (resenha), in Contexto Internacional, vol. 19, nº 1, Jan/Jun 96, p. 175-179, Rio de Janeiro.
- COSTA, Helder Santos (2003), O Martírio no Islão, Lisboa, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.
- INNERARITY, Daniel (2004), A Sociedade Invisível, Lisboa, Teorema.
- SUNG, Jung Mo (2006), “Globalização e a 'batalha moral'”, in http://www.adital.com.br/site/noticia2.asp?lang=PT&cod=24457 (Consultado em Janeiro de 2011).

domingo, 4 de março de 2012

Crises e política, segundo Steven K. Vogel

Steven K. Vogel (http://polisci.berkeley.edu/)
Nota: Por cortesia de Paulo Yokota, do portal Ásia Comentada, que nos alertou para este artigo e nos facultou a tradução do mesmo.

Steven K. Vogel, professor na UCLA (University of California, Los Angeles) e especialista no Extremo Oriente mostra, no artigo “Uma crise da democracia japonesa?”, publicado no Nikkei em Fevereiro, algumas preocupações com o Japão, em particular a necessidade de estimular a economia e de recuperar o país após o desastre do ano passado, numa altura em que a dívida pública do país está em crescendo, o que exige um aumento da carga fiscal.

O autor avisa que economias encaradas como ricas não devem lançar-se em cortes desmesurados dos seus gastos, sob pena de uma nova queda da economia, aliada a uma falta de confiança dos consumidores, a uma redução do consumo e a um aumento do desemprego.

O autor diz que actualmente é quase consensual que elevados gastos governamentais e altos impostos prejudicam a prestação económica de um país. Contudo, adverte, os países com maior carga fiscal e mais gastos conseguem melhores resultados quando são avaliados indicadores de bem-estar.

Steven K. Vogel defende que é preciso envolver o maior número de autores na política e não apenas as empresas sem os seus trabalhadores, como, segundo Harold Wilensky, acontece no Japão.

O especialista em assuntos do Extremo Oriente entende que é nos momentos de crise para a economia que salta a vista o facto de os países mais ricos não conseguirem enfrentar a sua insuficiência política. Daí que defenda uma aposta em mais burocracia, uma burocracia que permita uma negociação eficaz entre os diversos grupos de interesse. Ao mesmo tempo, considera, é necessário que os partidos consigam apresentar aos eleitores políticas económicas efectivas.


Pode ler o artigo na íntegra aqui.


quinta-feira, 1 de março de 2012

“Frost/Nixon”, entre a conquista e a efemeridade do poder


"O poder é o afrodisíaco mais forte."
Henry Kissinger1.


O filme “Frost/Nixon”, de Ron Howard, respira universalidade. Como observa J. Oberman, a temática do filme, que conta a história de um apresentador de televisão que consegue arrancar um pedido de desculpa aos norte-americanos por parte de Richard Nixon pela seu envolvimento no escândalo de operações ilegais contra a oposição durante a campanha eleitoral de 1972, que culminou com a sua vitória esmagadora, “não é o caso Watergate, mas as suas consequências” (Oberman, 2008), que se relevaram imediatamente indeléveis. Partindo do princípio de que o fenómeno do poder constitui “uma realidade generalizável a todo o plano relacional”, (Santos, 2007, 248), este filme aborda várias relações de poder.

Desde logo, a partir do caso Watergate, o jornalismo tornou-se mais agressivo e fiscalizador relativamente ao poder presidencial - até então encarado como quase inquestionável – aproximando-se assim da qualificação que lhe é atribuída de “Quarto Poder”. Muitos jornais passaram a assumir a sua preferência política. Como espelho da sociedade ou como precursor das ideias dominantes na mesma, o jornalismo, a partir deste caso, despertou para o facto de os que políticos podem ter segredos e “não devem ser confiáveis” (Browning, 2008). O caso Watergate, resultante de um desejo de continuidade de poder político por parte de Robert Nixon, trouxe desilusão e, como escreve Silvia Browning, mudou bastante o cenário político, bem como as “políticas internas e externas” dos EUA (Browning, 2008). De acordo com Adriano Moreira, “a adesão ou repulsa” entre a população e governo tem um efeito imediato sobre o poder efectivo (Moreira 2002, 255) de um Estado a nível internacional. Neste sentido, dentro daquilo que o autor define como capacidade de acção colectiva enquanto recurso disponível de um Estado – no âmbito do seu poder potencial2 - encontra-se o grau de coesão nacional, o carisma da liderança e a aceitação das chefias. Tudo isto saiu afectado com este episódio de corrupção.

No campo internacional, alguns autores acreditam que o caso Watergate veio deteriorar ainda mais as relações dos Estados Unidos com a Rússia, como Henry Kissinger, já que o relacionamento entre os dois países paralisou em 1974, ano da renúncia do antigo presidente norte-americano, mas Robert D. Schulzinger ressalva que apesar das tentativas de aproximação antes dessa data, elas nunca obtiveram resultados palpáveis (AAVV, 1993, 408).

Efectivamente, o filme aborda várias questões da política externa norte-americana durante a administração Nixon, uma das mais elogiadas neste campo. Quando faleceu, alguns dos sucessores de Richard Nixon elogiaram os êxitos da sua política no Vietmane, a tentativa de acordar com a Rússia uma redução de armamento (numa época em que se temia uma guerra nuclear) e o facto de ter aberto o caminho para a aceitação da China na comunidade internacional, colocando, assim, os Estados Unidos na linha da frente da política internacional.

Numa das quatro entrevistas a David Frost, Richard Nixon disse que a guerra do Vietname, uma “herança” nas suas palavras, foi um “teste à credibilidade norte-americana”. Henry Kissinger – para quem Richard Nixon era “altamente sofisticado em questões internacionais” (Kissinger, 1996, 590) - explica que a administração do presidente envolvido no caso Watergate procurava no Vietname “uma solução que permitisse à América continuar a sua função internacional no pós-guerra, a de protector e paladino dos povos livres”. O mesmo autor reforça que o antigo Chefe de Estado norte-americano “dava importância à credibilidade e à honra, porque estas definiam a capacidade da América para moldar uma ordem internacional pacífica” (Kissinger, 1996, 588). A participação na guerra do Vietname acabou por revelar-se útil numa altura em que era “necessária uma importante reformulação da política externa americana”, escreve ainda Kissinger (1996, 613).

Além da importância de participar numa conflito dentro da Guerra Fria, onde também estava a Rússia e, neste sentido, em jogo o poder militar de cada uma das potências que “dividiam” o mundo na altura, era importante para Richard Nixon travar o comunismo, uma ideologia opositora ao capitalismo norte-americano e que o antigo Chefe de Estado encarava como uma ameaça. Segundo David Frost, Nixon disse que o Cambodja era o “quartel” de toda a operação comunista no Vietname do Sul para justificar a intervenção naquele país.

Porém, ao contrário do esperado e do facto de possuir mais recursos materiais e imateriais do que o adversário, os Estados Unidos acabaram por sair derrotados no Vietname pela guerrilha das tropas do Exército do Vietname do Norte. Neste sentido, pode então falar-se de poder estrutural, que corresponde à “autoridade para determinar as regras do jogo e determinar a forma como os outros jogarão o jogo” (Holsti, 1995, 126) e que ditou a vitória dos vietnamitas do Norte, apoiados logisticamente pela Rússia, Coreia do Norte e China, países que não se envolveram efectivamente no conflito. Ainda no âmbito da teoria dos jogos, talvez tenha faltado aos Estados Unidos um maior debruçamento sobre o “second-guessing”, isto é, uma reinterpretação ou uma reavaliação dos processos intelectuais do adversário para ganhar vantagem sobre o oponente, como é defendido por James E. Dougherty e Robert L. Pfaltzgraff (Dougherty e Pfaltzgraff, 1981, 513).

A derrota neste território não só prejudicou a intenção dos EUA de travar a expansão do comunismo, como teve um forte impacto no poderio militar do país, o que se reflectiu no chamado “Síndrome do Vietname”, traduzido numa espécie de trauma que levou os norte-americanos a mostrarem pouca abertura para a participação do país em conflitos bélicos no exterior e, consequentemente, numa mudança na política exterior da América até à eleição de Ronald Reagan, em 1980.

No filme “Frost/Nixon”, o antigo presidente norte-americano mostra-se insatisfeito por as pessoas estarem apenas preocupadas com o caso Watergate e esquecerem os feitos que conseguiu a nível internacional. Porém, na política externa, existe uma forma de poder denominada “soft power”, à luz da qual o modelo de funcionamento político interno constitui um exemplo e uma forma de persuadir os outros, como explica Victor Marques dos Santos (Santos, 2007, 282). Por outras palavras, o facto de, pela primeira vez, um país como os Estados Unidos ter um presidente pouco merecedor da confiança do povo afectou a poder do país a nível internacional, ao expor uma das suas fragilidades. Este motivo explica porque é que Richard Nixon é sobretudo recordado na história da corrupção política, como remata o filme.

A ideia de que o poder está intrinsecamente ligado ao interesse de um país, defendida por Hans J. Morgenthau (Morgenthau, 1993, 10), vai ao encontro daquilo que Nixon responde na entrevista a David Frost para justificar o seu abuso de poder na invasão da sede do Comité Nacional Democrata: “Quando um presidente faz algo, significa que isso não é ilegal”.

A questão do poder está também ligada à origem do próprio caso Watergate ou não fosse a invasão dos escritórios do principal partido da oposição uma acção levada a cabo no sentido de Richard Nixon assegurar a sua permanência no poder.

A falta de coesão nacional - um elemento importante na política externa, como anteriormente referido - também foi notória em torno do perdão concebido por Gerald R. Ford ao seu antecessor pelo envolvimento no caso Watergate, uma decisão que se traduziu numa polarização de um país já traumatizado pelo factos relativos ao escândalo. Enquanto alguns cidadãos entendiam que o antigo governante deveria ir a julgamento, outros encaravam a renúncia como suficiente e Nixon como uma vítima. Pode dizer-se que também este perdão presidencial, enquadrado num direito constitucional, constituiu um acto de poder.

A problemática do poder, que atravessa todo o filme, é também visível na relação entre o entrevistador e o antigo presidente, já que ambos procuram inverter o rumo das suas vidas com as entrevistas, num “duelo”, como inicialmente referem, em que só um podia ganhar. Nesta perspectiva é levada ao extremo a definição de Mongethau, que encara o poder como “tudo aquilo que estabelece e mantém o controlo do homem sobre o homem” (Mongethau, 1993, 11).

Nesta busca do poder, a preparação, dita estratégia, assume um papel fundamental, como é notório na parte – essencial no andamento da história – em que o antigo governante norte-americano liga a David Frost, arrasado pelo seu fraco desempenho nas entrevistas até então, para o incitar a preparar a ultima entrevista, dedicada ao escândalo Watergate. Nesta conversa, dois homens que nasceram do nada e que se tornaram personalidades importantes compartem o medo de regressar à estaca zero, numa assunção de que o poder é algo efémero e em permanente construção.

O próprio realizador, Rod Howard, disse aos jornalistas, ainda antes da estreia, que “Frost/Nixon” não é um filme sobre política, mas antes uma história humana sobre o facto de alguém que está “no fundo” e a “tentar sair dessa situação usando todas as ferramentas que se tem ao alcance”.

Deste filme pode ainda concluir-se que numa luta de poder nem sempre existe um total vencedor e um total vencido, já que se David Frost conseguiu a confissão que tanto ansiava, Richard Nixon soltou, na entrevista, o pedido de desculpas ao povo da América pelo qual a sua consciência suplicava.

Esta transversalidade das diferentes formas de poder que ressaltam do filme tornam-no numa lição universal, quer para jornalistas, políticos ou diplomatas, quer para cada indivíduo que queira entender algumas dinâmicas da sociedade em que se insere.


Bibliografia:

  • ARENAL, Celestino del (1990), Introducción a las Relaciones Internacionales, Madrid Tecnos (Citado por Victor Marques dos Santos em Teoria das Relações Internacionais - Cooperação e Conflito na Sociedade Internacional).
  • BROWNING, Silvia (2008), “Watergate had a great impact on the American Political scene”, in www.mightystudents.com (consultado em Novembro de 2010).
  • DOUGHERTY, James E., PFALTZGRAFF, Robert (1981), Contending Theories of International Relations, A Comprehensive Survey, Nova Iorque, Harper & Row. (citado por Victor Marques dos Santos em Introdução à Teoria das Relações Internacionais).
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1Conselheiro político e confidente de Richard Nixon e co-vencedor do Prémio Nobel da Paz em 1973 pelo seu papel na obtenção do acordo de cessar-fogo na Guerra do Vietname.
2Celestino del Arenal (Arenal,1983, 510) distingue poder potencial de poder actual, ou seja, poder real de poder efectivo, segundo Vítor Marques dos Santos (Santos, 2007,257)