quarta-feira, 27 de junho de 2012

Morsi, Presidente

Com 51,7% dos votos, Mohammed Morsi é o novo Presidente do Egipto. No seu primeiro discurso perante a nação prometeu ser o "líder de todos os egípcios".
O cenário não é promissor. O Conselho Supremo das Forças Armadas continua a governar o país e dá mostras de não abandonar o poder tão cedo. O Parlamento egípcio foi dissolvido ainda este mês pelo Tribunal Constitucional do Egipto, uma vez que este considera que cerca de um terço da assembleia fora eleita ilegalmente. E a Constituição ainda não foi redigida. 
Mohammed Morsi encontra um país totalmente dividido e perdido da revolução que depôs Mubarak em Fevereiro de 2011. 
Morsi não terá trabalho fácil, mais ainda se quiser que a Irmandade Muçulmana mantenha posição relevante no parlamento egípcio nas próximas legislativas.


quarta-feira, 20 de junho de 2012

"O Egito e as eleições com dois vencedores"


Ainda sobre as eleições presidenciais no Egipto aconselho a leitura do texto "o Egipto e as eleições com dois vencedores" que podem encontrar aqui. 
A autora debruça-se sobre os recentes acontecimentos que assolaram aquela região e o impasse em que se encontra. 
Para uma grande maioria egípcia a revolução perdeu o seu rumo, ora vejamos os sucessivos protestos desde a queda de Hosni Mubarak em Fevereiro de 2011. No Cairo, um correspondente da euronews evidencia o mesmo, "“os resultados das eleições estão próximas, pouco importa quem ganha, elas confirmam que o povo egípcio está dividido, um ano e meio após a revolução, mas a praça Tahrir, mantém-se o lugar por excelência dos protestos que vão perdendo vigor”.  
Qualquer que seja o resultado destas eleições certamente não cessaram os protestos.

Boa leitura!

domingo, 17 de junho de 2012

Egipto e as presidenciais

 "If you speak you die. If you stay silent, you die. So speak, and die"
Tahar Djaout

Hoje é dia decisivo no Egipto!
As presidenciais decorrem durante este fim de semana na região e irão ditar o rumo daquele país. 
Após intensa polémica e a retirada de alguns candidatos por não cumprirem todos os 'requisitos', a corrida ao cargo é disputada por Ahmed Shafik, militar que desempenhou altos cargos durante o regime de Mubarak e que foi o último primeiro-ministro, e por Mohammed Morsy, islâmico e representante da Irmandade Muçulmana. A presença de Shafik nas presidenciais gerou contestação uma vez que temem um retrocesso ao antigo regime. Por sua vez, a candidatura de Morsy provocou polémica visto que receiam o estabelecimento do fundamentalismo islâmico.
Saliento que apesar de estar a decorrer as eleições presidenciais, os poderes do futuro chefe de estado ainda não são do conhecimento da população. O processo constitucional que deveria realizar a nova constituição foi interrompido, pois o Conselho Militar após decisão do Tribunal Constitucional dissolveu o parlamento egípcio.
O cenário continua em totalmente em aberto. Para muitos egípcios a revolução perdeu o seu rumo... Qualquer que seja o resultado destas presidenciais, o mais certo é a contestação regressar às ruas.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Basel Shehade o cineasta

A escalada do terror continua na Síria e parece não ter fim. Ao fim de 15 meses de violência cerca de 13 mil pessoas morreram. «Os números dizem pouco. Já morreram sírios de todas as idades e em todos os lugares. Já morreram muitos sírios que podiam estar longe da Síria». Sejam sírios, estrangeiros, homens, mulheres ou crianças...  pessoas morrem todos os dias!
Os  sucessivos vetos russo e chinês  no Conselho de Segurança impedem qualquer iniciativa militar apenas contribuem para que o terror continue naquela região.
Enquanto uns discutem se o conflito pode ser considerado "guerra civil" ou se ainda estamos perante uma "insurreição", massacres ocorrerem. Após o intenso combate em Homs, Hama, e outras cidades, agora é vez de Houla e Haffe. Segundo um relatório da ONU, crianças estão a ser usadas como "escudos humanos". Radhika Coomaraswamy, representante especial da ONU para as crianças e para os conflitos armados, afirma que crianças estão a ser detidas, torturadas e assassinadas.
Relembro que desde Abril um cessar-fogo está estipulado pelo plano de paz do enviado especial Kofi Annan, mas na prática não resultou em qualquer mudança. Integrado nesse mesmo plano de paz cerca de 300 observadores da ONU encontram-se no território, mas apesar dos esforços a violência perdura. Para escapar ao terror milhares de pessoas refugiam-se nos estados vizinhos nomeadamente Turquia, Iraque, Líbano e Jordânia.

Hoje impera falar daqueles que rumam ao conflito para dar a conhecer ao mundo os horrores e assim contar a história de todos aqueles que  seriam esquecidos.
Há uma semana morreu Basel Shehade! Mais um sírio, mais um civil para a longa lista de mortes desde o início da revolta há 15 meses. Shehade, cineasta, percorria o território sírio a gravar imagens da violência. Não é o primeiro a morrer ao relatar os terrores vividos na região. Relembro que como Shehade, Marie Colvin, repórter de guerra, e Rémi Ochlik, fotojornalista, viriam a falecer debaixo do intenso bombardeamento do exército sírio. No seu curto percurso Shehade incutiu nos outros a necessidade de fazer o que realizava, documentar os horrores do conflito para que não fossem esquecidos e muito menos negados, como é usual ao Homem.

Abaixo podem encontrar um dos seus trabalhos mais recentes, "Singing to Freedom", onde reúne entrevistas a activistas sírios.







segunda-feira, 11 de junho de 2012

"Maghreb/Machrek, olhares luso-marroquinos sobre a primavera árabe"

Hoje deixo uma sugestão de leitura, para todos aqueles que se interessam pelo mundo árabe. "Maghreb/Machrek, olhares luso-marroquinos sobre a primavera árabe", blogue de Raúl M. Braga Pires e Fanou Adjana Souag, que pode encontrar aqui, debruça-se essencialmente sobre a tão proclamada "Primavera Árabe" e os seus efeitos desde o Maghreb ao Machrek.
No referido blogue podem encontrar textos sobre a actual situação nos vários Estados, nomeadamente, Tunísia, Egipto, Líbia e afins. Como acima referi, apesar de naquele espaço de exposição encontrar maioritariamente dados sobre a "Primavera Árabe", podem também deparar-se com informações sobre outros assuntos, ainda que relacionados com o mundo árabe e/ou islâmico.
Aconselho o acompanhamento deste espaço de opinião. 
Boas leituras!

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Jihad, uma palavra entre tantos significados

Jihad é um conceito pilar do Islamismo, uma religião com cerca de 1,2 bilhões de seguidores, o que representa um quinto da população mundial. Os muçulmanos governam ainda 50 países do mundo. Com efeito, quem crê nas palavras de Maomé adopta não uma religião, como é commumente entendido, mas um modo de vida que inclui instruções relacionadas com todos os aspectos da actividade humana, como políticos, sociais, económicos, legais e militares.

A raiz linguística de Jihad, vem de Jihd (esforço) ou do verbo Jihad (esforço constante), mas a palavra, como tantas outras, tem mais um significado simbólico do que linguistico, o que dá azo a diversas interpretações.

A Jihad é encarada como uma luta, resultante de uma vontade pessoal, em busca da fé perfeita. Esse caminho pode ser feito pela luta do homem consigo mesmo através da ascese e de exercícios de piedade, a Jihad Maior, ou pelo esforço no sentido de converter os outros ao Islamismo e de mobilizar uma luta política e social, a Jihad Menor.

Apesar de a Jihad não integrar os cinco pilares do Islão – a recitação e aceitação da crença, orar cinco vezes por dia, dar esmolas, cumprir o jejum no Ramadão e fazer uma peregrinação a Meca se a pessoa tiver condições físicas e económicas – a verdade é que o termo aparece referido várias vezes no Alcorão. Helder Santos Costa refere que a doutrina muçulmana clássica aponta a existência de dois mundos, o Mundo do Islão e o Mundo da Guerra ou Mundo dos Infiéis, estando este último destinado a desaparecer (Costa, 2003, p 35).

O termo Jihad foi utilizado por Maomé com o significado de "guerra sagrada", simbolizando a luta pela conversão do maior número de pessoas ao Islão. De acordo com Ahmed Rashid, “os muçulmanos veneram a vida do profeta Maomé, porque exemplificou tanto a grande como a pequena Jihad”, lutando ao longo da vida para “melhorar como muçulmano, tanto para dar o exemplo aos que O rodeavam como para demonstrar o Seu completo compromisso com Deus”, mas também “combateu a corrupta sociedade árabe em que vivia e serviu-se de todos os meios – incluindo meios militares, mas não exclusivamente – para a transformar” (Rashid, 2003, p. 16). Segundo as formas comuns do Islão, se uma pessoa morre em Jihad, é enviada directamente para o paraíso, sem quaisquer punições pelos seus pecados.
   
No Ocidente, a Jihad e normalmente traduzida para Guerra Santa, o que parece irritar os muçulmanos. Contudo, no Alcorão lê-se: “Matai-os até que a perseguição não exista e esteja no seu lugar a religião de Deus. Se eles se converterem, não haverá mais hostilidade” (cf. Cruz, 2002, p. 67). De acordo com Alcino Cruz, a Guerra Santa encontra-se estatuída no versículo 89: “os hipócritas quereriam que renegásseis como eles renegaram e que fosseis todos iguais”. “Não Tomeis chefes entre eles até que se afastem pela causa de Alá que conduz ao combate: se voltarem costas, apanhai-os e matai-os onde quer que os encontreis” (Cruz, 2002, p. 60). Porém, José Marín Reveros faz uma forte distinção entre as duas palavras, ao escrever que “a Jihad muçulmana, entendida como o esforço no caminho de Alá, pode chegar a constituir-se numa Guerra Santa, partilhando certos elementos com o Cristianismo” (Riveros, p. 7).
   
Neste âmbito, importa ressalvar que existe uma diferença entre as várias culturas islâmicas e a ideologia islamista, que congrega pessoas que defendem ou recorrem ao uso das armas, por oposição aos muçulmanos, que são simplesmente crentes na fé islâmica (Foi tomada a opção de distinguir islamistas e islamitas da seguinte forma: enquanto os primeiros usam o Islão como arma política e de terrorismo, os segundos são meros crentes no Islão). Henrique Raposo diz que “a primeira característica dos islamistas é o seu ódio às diferentes culturas islâmicas” e frisa que o bombista suicida “ameaça em igual medida os ocidentais e a maioria dos muçulmanos” (Raposo, 2009, p. 5).
   
Para além da forma agressiva da Jihad, que já abordámos enquanto Jihad Menor, existe uma vertente defensiva. Os que defendem esta ideia, só utilizam a Jihad em casos semelhantes às batalhas que Maomé travou, após ter sido agredido. “Mesmo que na ocasião tenha usado a força, fê-lo, segundo os muçulmanos, só depois de ter recebido permissão divina”, escreve Silas Tostes (Tostes, 19). Esta opção defensiva “tem a vantagem de ter consenso com o artigo 51 da Carta da Nações Unidas (auto-defesa), e com a opinião do Vaticano”, destaca o mesmo autor (Tostes, p. 25).
   
Note-se que existe ainda discordância quanto ao recurso à Jihad agressiva, com alguns autores a defenderem que o seu uso não é obrigatório mas deve ser feito em situações de inesperado ataque à comunidade islâmica. Por outro lado, muçulmanos islamistas como o ex-líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, entendem que este uso é obrigatório.
   
A esta ideia presente no Ocidente de que existe uma guerra violenta destinada a transformar as pessoas em muçulmanos à força resulta em grande parte de diversos atentados terroristas, como os de 11 de Setembro de 2001, levados a cabo pela Al-Qaeda.
   
Há ainda alguns grupos que entendem que a Jihad passa também pela reclamação de terra que em tempos pertenceu a muçulmanos ou pela protecção do Islão contra aquilo que eles encaram como influências que "corrompem" a vida muçulmana.

Bassam Tibi, sociólogo sírio-alemão especialista no Islão e muçulmano sunita, entende que o fenómeno do fundamentalismo islâmico desvirtua o Islão tornando-o num factor de acção política em proveito próprio.
   
Por outro lado, repare-se que na visão de Ustaz Haji Ali Haji Mohamed, o ser humano, sem ter noção disso, está num estado constante de Jihad, já que se esforça sem esperar formas de gratificação e evitando coisas que são proibidas (Mohamed, p. 7).

Referências bibliográficas:


- COSTA, Helder Santos (2003), O Martírio no Islão, Lisboa, ISCSP.
- CRUZ, Alcino (2002), O pensamento e a humilhação das mulheres da fé islâmica, Lisboa, Campo Grande Editora.
- MOHAMED, Ustaz Haji Ali Haji, “Understand Jihad”, in www.rrg.sg/edisi/data/Understanding_jihad.pdf  (Consultado em Dezembro de 2010).
- RAPOSO, Henrique (2009), “O islamismo nas sociedades europeias – os mitos da comunidade muçulmana, do diálogo de civilizações e do Islão moderado”, in www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/ri/n22/n22a06.pdf  (Consultado em Dezembro de 2010).
- RASHID, Ahmed (2003), Jihad – Ascensão do Islão militante na Ásia Central, Lisboa, Terramar.
- RIVEROS, José Marín, “Islão, Guerra e Jihad”, in http://www.google.pt/url?sa=t&source=web&cd=1&ved=0CBcQFjAA&url=http%3A%2F%2Farpa.ucv.cl%2Farchivum4%2Fhistoria%2520medieval%2Fislam.%2520guerra%2520y%2520jihad...jm.riveros.pdf&ei=b9QITe1XxfOyBsDhwJQD&usg=AFQjCNHHunkvjTAlcMdETirK-yDbB7RjNw&sig2=iI5CL7oMjewy_rb0dDj8AQ (Consultado em Dezembro de 2010).
- TOSTES, Silas, “Jihad e o Reino de Deus”, in instituto.antropos.com.br/downloads/Jihad.pdf (Consultado em Dezembro de 2010).

Nota: Trabalho realizado em Dezembro de 2010.