sábado, 5 de novembro de 2011

A nova frente da Al Qaeda


O Sahel tem-se tornado numa zona 'viveiro' de terroristas, tendo até o grupo Boko Haram criado uma base apelidada de “Afeganistão” na Nigéria. A vizinha Europa, alvo atraente, é agora 'convidada' a assumir o papel principal na luta anti-terrorismo.

A Jihad ('guerra sagrada') em África ganhou expressão sobretudo a partir de 1998 e, desde então, os ataques terroristas têm-se multiplicado, à medida que cresce o ódio contra uma Europa que se fez distante após décadas de colonizações e que serve de bode expiatório para muitos dos problemas que a região enfrenta, como a pobreza extrema.

Com as crescentes limitações na Ásia, que tiveram como expoente máximo a luta contra o terrorismo no Afeganistão, os terroristas internacionais encontram agora em África o terreno ideal para se movimentarem. Fronteiras permeáveis, fraco policiamento, Estados falhados como a Somália, crescente número de muçulmanos descontentes com as autoridades, desemprego em crescendo, recursos naturais ricos e por explorar e crime organizado transnacional são alguns dos ingredientes que tornam a região num paraíso para os terroristas.

                                                                                Legenda: Zona do Sahel (Créditos: eatig2008.wordpress.com)

Com efeito, a falta de dinheiro leva muitos habitantes da zona a ceder às tentações oferecidas por organizações como a Al Qaeda no Magreb Islâmico, ainda que muitos deles não abracem a causa da Jihad.

Não é esta, todavia, a tendência. Com a ausência de oportunidades numa zona historicamente marcada por disputas entre muçulmanos e cristãos e pela importância do Islão na mobilização das massas contra o colonialismo, muitas pessoas encontram agora respostas em organizações terroristas islamistas, em particular em escolas que formam futuros jihadistas.

É o caso do grupo nigeriano Boko Haram (significa 'educação proibida' em alusão ao ensino ocidental), que critica a corrupção e a violência policial e que luta pela implementação da 'Sharia' (lei islâmica) em todo a Nigéria, o oitavo país mais populoso do mundo.

Segundo a AP, só este ano o grupo, que tem aterrorizado a região, sobretudo cristãos e polícias, terá morto pelo menos 247 pessoas, 21 das quais no atentado aos escritórios da ONU em Abuja. Este ataque surpreendeu o mundo, visto que a organização bate-se por mudanças internas e não internacionais (ainda que a ideia da Jihad seja tornar o mundo totalmente muçulmano, recorrendo mesmo ao uso da força para tal).

Cresce assim o receio de uma cooperação operacional cada vez maior entre redes internacionais, como a Al Qaeda, e seitas regionais, uma equação onde entram ainda os rebeldes shebab na Somália.

Ainda esta sexta-feira, o íman Abubakar Shekau defendeu que a 'guerra sagrada' é a única forma de os muçulmanos na Nigéria conseguirem mudanças e instou os seguidores do Boko Haram a continuarem com os assassinatos.

                                                                            Legenda: Soldados do Boko Haram (Créditos: www.gnaija.net) 
Após os erros cometidos no Afeganistão, os Estados Unidos têm trilhado um caminho diferente na luta anti-terrorista no Sahel, apostando sobretudo na prevenção e no apoio militar às autoridades. Trata-se, contudo, de um apoio pouco inocente, tendo em conta a importância dos recursos estratégicos da zona, os mesmos recursos que levam a China a cortejar a região com investimentos em infra-estruturas.

A Europa, devido à proximidade histórica e geográfica com os países do Sahel, deve assumir um papel predominante na luta anti-terrorista, apostando não tanto em reforços militares, mas sobretudo no apoio à construção de sociedades mais sãs, com escolas acessíveis à maioria da população, autoridades fortes e economias capazes de gerar emprego. Não é tarefa fácil, mas os países europeus poderão ganhar muito com isso se fizerem parcerias inteligentes que lhes permitam obter ganhos com alguns dos recursos da região, como petróleo e ouro.

Pelo contrário, virando costas a esta realidade, a Europa arrisca-se a ver cada vez mais terroristas entrarem-lhe pela porta das traseiras, bem como a sofrer com o crime organizado que serpenteia o deserto do Saara até ao sul da Europa.

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