segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Paulo Yokota: “EUA e UE continuam com políticas económicas erradas”

Paulo Yokota, economista brasileiro (dupla nacionalidade japonesa), ex-director do Banco Central do Brasil, ex-presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e antigo professor da Universidade de São Paulo. Tem marcado a sua carreira entre dois lados do Pacífico, Brasil e Japão, contando com várias publicações sobre o intercâmbio entre estes dois países, mas também já trabalhou pela Europa e Estados Unidos. É ainda o responsável pelo site Ásia Comentada, com o qual o Ocidente Subjectivo tem uma parceria de troca de divulgação de artigos. Em entrevista feita por email, o economista alertou que Estados Unidos e União Europeia têm seguido o caminho errado, continuando reféns do sistema financeiro, e mostrou-se muito crítico do FMI. Disse ainda que a introdução do euro foi “forçada”, identificou muita inércia entre os funcionários de instituições internacionais e avisou que o Brasil terá dificuldades em obter um lugar permanente no Conselho de Segurança.

Ocidente Subjectivo (OS): O euro conseguiu superar a primazia histórica do dólar mas a crise das dívidas soberanas em vários países da Zona Euro tem posto a nu várias fragilidades. Entende que o fim da moeda única europeia ou o convivência com o regresso de algumas moedas locais (como acontece em algumas localidades brasileiras com vista a estimular o comércio da região) poderia ser uma saída para a crise na Europa?

Paulo Yokota: Tenho a impressão que, apesar dos cuidados tomados antes da formação da Comunidade Europeia, a Europa não é uma região ideal para tais iniciativas, pois as diferenças entre os diversos países membros são acentuadas. Uma política fiscal uniforme em países de nível de desenvolvimento económico diferentes é sempre difícil. Os mais desenvolvidos ajudaram, em parte, no preparo de uma infra-estrutura compatível, mas, na minha modesta opinião, a introdução da moeda única foi forçada. Mesmo nos Estados Unidos, o sistema FED [Reserva Federal norte-americana] procura respeitar estas diferenças, com unidades regionais, com suas limitações e diferenças. Há necessidade, a meu ver, de uma política monetária diferenciada pelos diversos países membros, pois as evoluções das economias locais se realizam em compassos diversos.
Como resolver agora com a actual situação existente? Parece uma tarefa hercúlea que vai exigir muito pragmatismo. As realidades económicas, mesmo com as ajudas possíveis, continuarão diferenciadas não se conseguindo fortes impulsos regionais, acima da média da Comunidade, como estão a ocorrer no Brasil, dadas as deseconomias de escala e aglomeração existentes nos centros mais avançados, com ganhos de produtividade rural e de mineração nas regiões que antes eram menos privilegiadas.
O turismo pode ajudar em algo, bem como actividades que já estão florescendo nas áreas mais periferias, mas tudo vai exigir muito tempo, não havendo segurança de que países como a Alemanha possam sustentar a situação durante este período.
Acho que o novo dirigente eleito em Espanha [Mariano Rajoy] tem razão: não há milagre e será preciso diminuir as diferenças nos preparos dos recursos humanos e o máximo aproveitamento das oportunidades regionais. Acredito que o regresso ao passado será mais complexo. A Europa terá que continuar a fazer o que for possível.

OS: Se fosse presidente do Banco Central Europeu (BCE) optaria pela emissão de mais moeda? Neste sentido, considera que a desvalorização poderá ser um dos caminhos para sair da crise?

Paulo Yokota: O mundo continua utilizando os recursos de que dispõem, com os Estados Unidos a inundarem o mundo com os seus dólares, alegando necessidade de competir com os chineses. Como consequência, o dólar desvalorizou e as moedas dos seus parceiros valorizaram. Acredito que está a haver uma ligeira correcção recente, mas tudo ainda vai depender de como evoluirá a competitividade das diversas regiões no mundo. Como afirmou a Presidente [do Brasil] Dilma Rousseff na ONU, os Estados Unidos e a Europa, do nosso ponto de vista, continuam com as políticas económicas erradas, despendendo recursos para assistir o sistema bancário, quando o problema mundial só pode ser resolvido pelo aumento da demanda e do emprego. As empresas estão com volumes absurdos de recursos financeiros, mas não os investem, pois não existe demanda. No Japão, afectado pelos desastres, a reconstrução está a activar a economia com as demandas que estão a aumentar.

OS:
Barack Obama, que encara com apreensão os efeitos da crise europeia na recuperação nos Estados Unidos, vira-se agora para o Tratado de Livre Comércio Transpacífico (TPP, na sigla em inglês), que deverá ser a maior área de livre comércio do mundo. Em breves traços, como vislumbra o panorama económico mundial após a consolidação desta zona?

Paulo Yokota: O TPP é um projecto de longo prazo e necessitaria conciliar de forma muito difícil a grande diferença existente entre os países que o estão a discutir, não se constituindo numa alternativa. Se forçarem a sua implantação, os seus participantes colherão problemas semelhantes aos da Comunidade Europeia. Existem muitas condições prévias a serem atendidas. Quer me parecer que a sua discussão é somente uma forma de fugir dos problemas que enfrentam com a desaceleração do crescimento da economia mundial. Os acordos de livre comércio só são sustentáveis quando os parceiros gozam de situações semelhantes.

OS:
Poderemos um dia vir a falar de uma “guerra” económica, com blocos muito fortes e fechados?

Paulo Yokota: Não acredito nesta “guerra”. O que pode acontecer é a tomada de medidas pontuais para resolver os problemas mais graves, com efeitos limitados. No actual mundo globalizado é impossível as economias se manterem fechadas, sob o risco de acabarem isoladas.

OS: Na sequência da questão anterior e tendo em conta o crescimento do Brasil, um país que tem apostado em proteger a sua economia, antevê um mundo cada vez mais proteccionista?

Paulo Yokota: As condições vigentes no Brasil, com uma tributação elevada, juros reais altos, infra-estrutura precária, recursos humanos pouco preparados, pesados encargos previdenciários e uma série de outras distorções, as medidas que estão sendo tomadas destinam-se somente a uma protecção temporária à estrutura industrial já existente. A elevação da produtividade agropecuária e da mineração, bem como das produções adicionais de petróleo e gás, acabam exigindo medidas para o avanço industrial, que não seja prejudicado por um câmbio extremamente valorizado. O Brasil, e não só ele, necessita de medidas multilaterais que controlem os fluxos exagerados dos recursos financeiros internacionais, principalmente os de carácter especulativo, mas o sistema financeiro internacional continua a resistir às diversas proposições neste sentido. O câmbio não é mais determinado pelo comércio e pelos investimentos, mas pelos absurdos fluxos financeiros, que são instáveis.

OS: Tem-se mostrado um optimista, defendendo mesmo que a situação no Japão após o sismo de 11 de Março trouxe algumas oportunidades a nível económico ao país. Em breves linhas, como pensa que poderá acabar a crise no contente africano, que, tal como o Brasil, é muito rico em recursos naturais estratégicos?

Paulo Yokota: África apresenta elevadas potencialidades do ponto de vista dos recursos naturais, mas ainda enfrenta a diferença entre os limites políticos a que foram impostos, quando uma parte substancial do continente ainda vive na realidade tribal. Mas, com a ajuda de países como o Brasil, e não tanto com a China, poderão ir, aos poucos e num prazo mais longo, consolidando uma classe média local, diversificando suas actividades económicas. Necessitarão de muito trabalho e por um prazo mais longo, mas o mundo está a necessitar de produtos que podem ser produzidos naquele continente.

OS: São os mercados que controlam a política ou a política pode controlar os mercados?

Paulo Yokota: Lamentavelmente, o que se chama mercado está distorcido pela forte influência do sector financeiro, que deveria estar ao lado do comércio, um dos braços auxiliares da produção. O bem-estar das diversas populações só melhorará na medida em que mais bens e serviços estejam à disposição delas. As simples transferências e os fluxos financeiros não ajudam muito na criação de bens de todas as naturezas.

OS: Há mais de dez anos, no rescaldo da crise asiática, encarada por muitos como a “crise do FMI”, e após o apoio daquela instituição ao Brasil, disse que o FMI não tem acertado e que é preciso voltar a dar maior atenção ao Banco Mundial. Continua a pensar o mesmo? Porquê?

Paulo Yokota: O FMI sempre teve uma distorção que imaginava resolver os problemas contendo as expansões monetárias e os gastos fiscais. Foram os coreanos que provaram que eles estavam errados e que é o aumento da produção que pode resolver os problemas, com o crescimento do emprego e das assistências aos desempregados. Está a haver uma evolução nos organismos internacionais, mas ainda muitos dos seus tecnocratas só sabem recomendar o que não foram capazes de executar, principalmente nos seus países de origem. Os que sabem, fazem, os que pensam saber, tendem a ensinar, sem nenhuma ofensa aos professores, que também fui um deles.  É muito fácil recomendar a outros que façam o que eles acham correcto, mas eles não estão sujeitos aos constrangimentos de toda a ordem, principalmente políticos.

OS:
A crise no euro já levou algumas pessoas a pôr em causa a actuação da União Europeia. Antevê a perda de poder de instituições internacionais perante a complexidade do mundo?

Paulo Yokota: Lamentavelmente, os organismos internacionais estão inflados com pessoal que apresentam baixa eficiência, pois são difíceis de serem cobrados pelos seus trabalhos. Se muitos são a favor das empresas privadas, onde a cobrança é imediata, criticando os funcionários públicos, imaginem os funcionários de organismos internacionais, cujos “patrões” estão muito distantes de uma efectiva “accountability”.

OS:
Considera que a Ronda de Doha está condenada?

Paulo Yokota: A Ronda de Doha, com um entendimento mundial, é cada vez mais difícil de obter avanços. Muitos países tentam alternativas pelos acordos de livre comércio FTA ou EPA – Economic Partnership Agreement. Acredito que os países necessitam ser pragmáticos, fazendo o que podem e não o que querem.

OS: Entre a dispendiosa luta contra o terrorismo (a guerra longa) e a crise económica, na sua opinião, como é que os Estados Unidos podem manter a sua supremacia na cena internacional?

Paulo Yokota: O mundo comandado por uma potência ou mesmo biporalizado parece coisa do passado. Já estamos num mundo globalizado e múltiplo, com muitos pólos regionais e intermediários. Os Estados Unidos não conseguem nem resolver os seus problemas, ainda que continuem importantes como geradores de algumas novas tecnologias. As suas universidades, que absorveram muitos europeus competentes durante e após a Segunda Guerra Mundial, hoje perdem parte dos seus mais capazes recursos humanos para países como a China. O predomínio da cultura e dos valores do Ocidente não são necessariamente os predominantes no mundo actual. Sempre nos esquecemos dos árabes e dos asiáticos. Até mesmo os andinos estão a ser recuperados, como muito do que os Maias nos deixaram. Estamos a reaprender muito com as civilizações milenares que já tiveram os seus apogeus no passado.

OS:
Entende que o facto de o Brasil assumir posições fortes, como a inclusão da Palestina como membro pleno da ONU ou a crítica à intervenção da NATO na Líbia, pode ajudar ou prejudicar a aspiração do país a membro permanente do Conselho de Segurança?

Paulo Yokota: O Brasil ainda terá dificuldades para obter um lugar permanente no Conselho de Segurança, pois a Alemanha e o Japão devem ter precedências e estão a receber vetos como o da China. O Brasil procura destacar a sua importância, como interlocutor de governos com os quais não concordamos, com o papel internacional que já desempenhamos, com o crescimento de sua economia de forma sustentável, com a substancial melhora de sua distribuição de renda pessoal e regional, com a consolidação de sua política com as substituições dos seus governantes (veja que até no regime militar tivemos sucessões), tradição de resolver as pendências internacionais com a diplomacia, forte miscigenação étnica e cultural, etc. Mas, também temos as nossas limitações e precisamos estar conscientes delas, aprendendo com as soluções que estão a ser obtidas por outros povos.

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